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Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011
Jogando a criança...parte 3 Conclusão

Ambiente e Sociedade como propulsores da leitura

 

Nosso ambiente e sociedade, é sabido, historicamente,  não propiciaram o hábito de leitura de livros , porque, tanto o acesso amplo, do ponto de vista material, quanto a qualificação para ler foram tardios para nosso povo, sendo que o impulso dos primeiros programas distributivos se deu após meados dos anos sessenta, e tomou vulto expressivo na década de 90. Outro fator foi o tardio entendimento do livro como objeto de consumo e  fruição, já que ele era visto como algo ligado ao ensino, à obrigação - à seara da escola. Uma política estabelecendo, diga-se de passagem, corretamente, um papel para o livro para além de objeto de "dever", com feiras e salões, festas literárias anuais (sem contar as bienais), enfim ações exclusivas a seu favor, é algo relativamente recente. Só para ilustrar, o Proler é de 1992 (quando Affonso Romano de Sant´Anna assume a Biblioteca Nacional) e o PNLL (Política Nacional do Livro e da Leitura) de 2003.

No entanto, eis  que em fins da década de 80, há uma revolução no início quase silenciosa, mas, em tempos recentes, tão avassaladora para o que diz respeito ao padrão eletivo de consumo, sem falar da expansão da tv com seu potencial de influência, quanto perturbador do processo educativo tradicional: a popularização da informática pelos computadores pessoais e Internet. Tanto que em 2006, a Folha de São Paulo (1)  divulgava uma pesquisa do IBGE sobre o crescimento dos meios de entretenimento, no qual o setor de provedores de Internet crescera entre 1999 e 2005, 207% contra 11% do mercado de livros.

Porém, mesmo diante desse quadro, a política de leitura permanece inalterada, considerando que a mídia eletrônica é "apenas acessória" e que "a verdadeira leitura está nos livros". Tal posição é conservadora, pois, evidente, até para se usar a internet é preciso tanto preparo quanto para uso do livros. A não se reconhecer esse quadro secular, cai-se numa posição de resistência, heroica e romântica, e talvez temerária, quanto a não se pensar em estratégias diante dessa avalanche da web e seus subprodutos.  Por outro lado, há uma tendência secular à espetacularização já contaminando as práticas leitoras. Úteis, porém com o risco de mais  formar plateias do que leitores.

Para finalizar, fala-se do "leitor crítico", o que é capaz de emitir juízo de valor sobre as leituras (de livros e do mundo). Mas há certo preconceito - quando se fala deste em relação ao leitor comum, que pode se um leitor menos culto e exigente, mas nada garante  que não possa exercer bem sua cidadania, sem ser erudito, por não ter lido obras canônicas.

 

Antes de ser considerada "do contra" ou "contra" o incentivo ou ações culturais em leitura, adianto que, longe disso,  procurei apontar aspectos  que considero frágeis na política do e para o livro, e que podem ser debatidos, revistos e atualizados, e creio ser esta uma contribuição que uma bibliotecária  cheia de dúvidas e inquietações possa dar.

 

 

 (1) Folha de São Paulo, 25 de setembro de 2006


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postado por Sheila G Soares às 21:08
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Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011
Jogando a criança fora com a água da bacia ...ou jogando a água da bacia com a criança? Parte I

Tive a oportunidade de ver meu trabalho aprovado no Congresso Internacional de Leitura em Havana de 25  a 29 de outubro deste ano. O que apresento aqui são comentários, pois o original foi bastante extenso e mais técnico. Minha exposição, intitulada Programas de Incentivo à Leitura: dúvidas e inquietações, pontua-se em três tópicos, que, do meu ponto-de-vista, merecem revisão das políticas. 1. Capacitação x Incentivo (Aprendizado e práticas de leitura) 2. O lugar da leitura literária (a Literatura deve se impor?) e 3. Ambiente e sociedade como propulsores da Leitura (que estratégias as políticas devem tomar em relação à crescente informatização da sociedade?).

 

Primeira parte: Capacitação e Incentivo (Aprendizado e Práticas de Leitura)

 

A um simples olhar, é nítida nas políticas de Leitura, a demarcação de duas fronteiras entre aprendizado e incentivo, uma dicotomia que vem a se fazer mais nítida, à medida que os órgãos ministeriais vinculados à Cultura e pertinentes ao livro e a Leitura, chamam para si a tarefa das práticas de leitura, uma vez acordado, entre  seus  agentes  e os da Educação, que há impossibilidade crônica ("interdição") do professor  em levá-las adiante. Tal estado de coisas é um lamentável consenso. À primeira vista parece razoável : a Educação cuida do aprendizado da leitura e a Cultura das práticas. Mas não é tão simples assim. Ocorre que, ao defender que o "as práticas, e não o aprendizado voltado para o cotidiano é que possibilitam  o leitor participar de maneira ativa da sociedade", tal postulado só seria verdade inteira, na medida que esse leitorado estivesse no domínio do letramento, ou seja que ele tivesse desenvolvido as etapas de decodificação, compreensão e produção escrita autonomamente. Ou dito de outra forma, que já estivesse vencendo, ou vencido, a linha divisória do analfabetismo funcional, condição que o ensino fundamental no país não tem  conduzido satisfatoriamente, conforme testes nacionais e internacionais de proficiência em leitura.  Defender práticas de leitura como "formação", sem essa sustentação, é como construir um edifício sem estrutura, ou como prefere o povo, "enxugar gelo". As diretrizes  políticas exageram quando afirmam que "o contato com materiais de leitura  possibilita o leitor se tornar autor de sua própria existência". Sim, mas nunca  se não estão suficientemente preparados para esse protagonismo. Não será o processo inverso - quanto mais preparado para os materiais de leitura, mais vivo será o interesse desse leitor? O fato de que o leitor necessita estar preparado para esses materiais não é científico, é constatável no cotidiano, por qualquer observador, como tenho feito há dez anos. O acesso ao livro, claro, repercute no interesse e no desejo, porém não diretamente na formação. Não podemos falar com honestidade no fato de brasileiro ler pouco atribuindo à falta de acesso ao livro no Brasil. Salvo em algumas aldeias e grotões; há, e já há algum tempo, inúmeros programas oficiais distributivos de grande porte, - e seria ocioso citá-los - voltados para escola e bibliotecas, fora as Organizações Não Governamentais atuando para esse fim. Daí  constatar-se facilmente  que o que aparenta ser "desinteresse" e "desestímulo" é tão somente falta de qualificação que a leitura requer. Recorrendo ao argumento prosaico: posso adorar automóveis ou pianos, mas como vou dominá-los, se não aprendo a utilizá-los? Fazer de conta  que leitura não é uma tecnologia é como jogar fora a água da bacia com a criança dentro, ou jogar fora a criança com a água da bacia?  Dizia Rubem Alves muito bem, "leitura sem dominar a técnica é um sofrimento". Foi simplesmente essa ideia, para muitos talvez óbvia, mas para mim simples, que tentei passar na minha exposição. Devemos sim, tentar trazer a nós , através da ação cultural, sem perder de vista os miúdos, aqueles leitores que estamos perdendo dia a dia, as verdadeiras "ovelhas desgarradas" por outros motivos, e muitos há, para não ler. Agora, os que não estão capacitados é dever moral e urgente da Educação promover : afinal, não é a esses que é negado o direito de ler, mas o de  saber ler para ser autor de sua existência.


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postado por Sheila G Soares às 19:33
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