Isto posto, vamos ao que me toca profissionalmente, mais de perto. O objeto/meio livro. E um livro didático, que eu chamo de LD. Aquele parecer a respeito de falares, de que "não está errada" esta ou aquela forma coloquial não é adequado à finalidade da obra que é de ensino, justamente da norma culta. Se norma culta parece besta, vamos entender que seja a linguagem formal, pronto. Não por obediência cega, não por falta de espírito crítico, não por censura aquilo não deveria estar ali. Nâo deveria estar ali porque é um juízo de valor de alguém, que seja o seu autor ou autora; e o lugar da opinião, do juízo, não é certamente o livro didático. São os foruns, é a imprensa, é a comunidade profissional, a família, a sociedade. Mas está ali. E sozinho o livro atingiu, só para começar, em torno de seiscentas mil cabeças, passando por cima da cabeça do professor, direto para as cabecinhas em formação, ainda mal formulando um discurso com a correção (formal) mínima. Este é o poder dado a este tipo de livro, que de auxiliar do professor, passou a seu superior direto . Lembro-me que certa vez escrevi um artigo - Lições de uma montanha de livros - descrevendo uma situação em que me via diante de uma quantidade imensa de livros para fazer triagem, e milhares, milhares mesmo - não menos de três dígitos - de exemplares do Livro do Professor. Examinei alguns e vi que não eram apenas orientações pedagógicas, eram a reprodução fiel do mesmo didático que ia para as crianças, só que com as respostas corretas, inclusive respostas discursivas. Em todas as disciplinas! Bem, podemos pensar, em todas as profissões temos nossos manuais, mas aqueles não eram manuais. Era como se um médico tivesse que, ao atender seu paciente, buscar seu diagnóstico nos manuais de Medicina - ou um advogado nos tratados de Direito - é claro que eles o farão, em caso de dúvida, mas vemos que não é usual, já que eles têm o domínio de sua especialidade, e a autonomia necessária para fazer as suas intervenções, só com a experiência, o conhecimento adquirido. Então, que poder é esse do livro didático? Que autonomia é essa do professor? É o que precisa ser posto.
Por uma aspecto é bom que tenha acontecido com o poderoso LD. De outro modo, quando haveria a oportunidade de se levantar algo que, para mim, e , acredito, muitos, não é senão a questão da autonomia e autoridade do professor que tal estado de coisas coloca em jogo?
Preconceito linguístico. Sob esta justificativa, um livro didático ("Por uma vida melhor", prof. Heloísa Ramos, editora Global ) relativiza o "falar certo" e "o falar errado". Dizia um velho ditado, de boas intenções o inferno está cheio. Acredito, sem a menor dúvida, nas boas intenções dessa professora aposentada, uma das autoras do livro. Recebeu uma saraivada de ataques, da grande imprensa, na redes e não serei eu mais um a jogar tomates. Quero abordar essa questão e fazer alguns links com a intenção, não a pretensão, de que alguns façam bom uso deles. É verdade que o "falar errado" é objeto de bullying. E que falar errado tem duas vertentes, a baixa instrução na língua pátria e o regionalismo. Todos conhecem muitas piadas e brincadeiras com o "mineirês", o "baianês" e "gaúchês", entre outras falas originadas nos estados e no interior do Brasil, e que inclusive são salutares, quem não há de compreender a existência dos múltiplos falares no país. Porém, a mais grave é aquela de recorte social, aquela que alija e exclui os indivíduos de suas oportunidades. Não são a raras as ocasiões que pessoas humildes são vítimas de chacotas, por falar "ferindo a norma culta", seja presencialmente nas escolas, seja pelos meios de comunicação (nos humorísticos), ou Internet. Nesse sentido "Seu Creysson" é mais pernicioso que Chico Bento, embora ambos igualmente abalroem a língua-mãe. Enfim, até aí nada demais que nas escolas se comentem os falares diversificados, mas monumental é a confusão que se dá entre os falares e a norma que estrutura organicamente a língua; a língua tem flexão, tem gênero e um conjunto de outros aspectos que a tornam una e única em sua expressão. "Os livro", então, está errado quando a norma estabelece que o plural afeta os termos de uma oração. Pode-se relativizar as falas, mas as regras apenas quando as mudanças culturais se impóem. Exemplo muito citado: Vossa Mercê, vosmicê e Você. Foi uma evolução que só se deu no século XIX apenas. O pronome vós e os possessivos vosso(os,a,as) são candidatos fortes ao museu da língua de estritíssimo uso; na área religiosa e jurídica. Asim muitas categorias devem estar condenadas ao ostracismo porque todos concordam que a língua é organismo vivo e poroso aos intercâmbios da sociedade. Hoje os intercâmbios são muito mais diversificados, em razão da globalização.
(Continua)
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