Esse blog é destinado aos interessados em leitura, cultura e educação que queiram, livre e criativamente, debater e apresentar suas idéias
posts recentes

Jogando a criança...parte...

Jogando a criança... Part...

Jogando a criança fora co...

O erro de Descartes. Erro...

A culpa é das briófitas

Até tu, Paulo Coelho?

CULTURA SOBRE BIBLIOTECA ...

Por uma vida melhor II - ...

Por uma vida melhor

O espírito da letra

posts anteriores

Dezembro 2011

Novembro 2011

Setembro 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Novembro 2009

Outubro 2009

Agosto 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Junho 2008

Maio 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Segunda-feira, 18 de Abril de 2011
O espírito da letra

“Leitores são puro mistério. Com os olhos alterados pelas sombras da loucura, Wellington Menezes de Oliveira , o atirador que matou 12 crianças em uma escola o Realengo, no Rio, leu trechos dispersos dos Evangelhos e do Alcorão como se fossem manuais de armas. Terroristas agem movidos pelo mesmo erro. O problema é que toda leitura  - mesmo a mais atenta e sábia – é sempre uma desfiguração. Toda leitura é deformada. Para meu incômodo, voltam-me as palavras de Augusto Roa Bastos: “Os livros não existem. Na cabeça de cada leitor, um livro é sempre outro livro”. O problema não está na constatação de que a letra é um abismo povoado por muitos espíritos. Está em esconder isso e supor que a leitura, ao contrário, é uma pedra. Leninistas e trotskistas ainda hoje discutem a maneira correta de ler Karl Marx. Freudianos e lacanianos disputam a “posse” da verdadeira leitura de Sigmund Freud. \um veio fundamentalista atravessa essas divergências. Contra os adeptos da leitura dura e encrespada em que a letra se faz grilhão, prefiro o sentido que lhe empresta a literatura, em que as palavras traçam sinuosas em que nos perdemos”.

Em outro trecho, JC declara: “Um mundo sem escrita (sem palavras) é um mundo louco. Do mesmo modo, um mundo intoxicado  de palavras – o mundo de Wellington – é uma terra devastada. A escrita não é só uma técnica. Não é algo que se faz, é algo que se sofre.(...) Toda escrita é parcial – atrás da presença luminosa dos traços, inscreve-se uma ausência. É essa ausência que os fundamentalistas, com sua arrogância, desprezam.(...) Sem as palavras o mundo parece mais simples, mas torna-se também mais assustador . A letra pode ser destruída, pode congelar nos porões da ordem, mas seu espírito  não se prende. (...) Antes que a escrita se torne pedra, antes que asfixie e mate,(...) morta pode enfim conectar-se com os espíritos que vagam entre as letras. Preserva assim a força das palavras, não como armas de guerra, mas como um fio a que, com grande esforço, nos agarramos”

 

              (José Castello, O espírito da Letra, O Globo, Prosa e Verso, 16 de abril de 2011).

 

Costumo anotar pérolas sobre leitura que nos levam a inúmeras reflexões. Neste artigo o colunista citado comenta o romance de Yasmine Gatha , Tinta Negra , em Rikkat Kunt, o personagem se aproxima (com leveza) das páginas do Alcorão e dos escribas árabes.

 

É claro que só os pequenos trechos acima dariam um tratado – sem durezas e encrespamentos – sobre produção de sentido – para o bem e para o mal -; sobre as convicções que são nada mais do que escolhas éticas (ou antiéticas), sobre fundamentalismo no ensino, onde reprodução é “interpretação”; na constatação evidente mas importante de que há o livro que é apenas o suporte, aquele “do copista”, que é a pedra, e aquele livro que ‘vai para a cabeça”, da recriação, da desfiguração e da loucura. E, digamos, acima do Bem e do Mal, a Literatura, na qual nos perdemos em suas sinuosidades e ausências, porque a Literatura não se pretende empedrar, congelar, engessar, dogmatizar enfim “asfixiar e matar”.

Os belos Alcorão e Evangelhos nutrem-se de Literatura à exaustão, mas com o propósito não de libertar o espírito, mas aprisioná-lo no “porão da ordem”. Assim toda uma literatura dita “de elevação moral e espiritual do homem” vem desta tradição de se ler ao pé da letra ensinamentos, arrastando o leitor a um sentido único, a um “senso comum”, exacerbado por psicopatas como Wellington Oliveira. Ao contrário desses a literatura libertária, com suas sinuosidades e ausências, povoam nossa imaginação e nos instiga. A ilustrar citaríamos como libertários um outro Evangelho, o de José Saramago, e mais outro, a obra de Kafka , Jonathan Swift, Cervantes e Lewis Carroll, esses devidamente  “infantilizados” para esterilizar o sentido anárquico e desfigurado de seu discurso, porque só um discurso “conexo e coerente” é moralmente aceitável para os fundamentalistas.

Enfim, disse muito pouco ou muito menos que José Castello, mas aqui não se faz uma aposta, aqui o brilhante artigo do colunista é uma luz que se acende para nós sobre o espírito da letra e das letras, e principalmente, nos interessa saber muito e cada vez mais sobre o que nos prende e nos asfixia.



postado por Sheila G Soares às 00:47
link do post | seu comentário | adicionar aos favoritos

Quem sou eu
pesquise neste blog
 
Dezembro 2011
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
28
30
31


tags

todas as tags

links relacionados
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds