“Leitores são puro mistério. Com os olhos alterados pelas sombras da loucura, Wellington Menezes de Oliveira , o atirador que matou 12 crianças em uma escola o Realengo, no Rio, leu trechos dispersos dos Evangelhos e do Alcorão como se fossem manuais de armas. Terroristas agem movidos pelo mesmo erro. O problema é que toda leitura - mesmo a mais atenta e sábia – é sempre uma desfiguração. Toda leitura é deformada. Para meu incômodo, voltam-me as palavras de Augusto Roa Bastos: “Os livros não existem. Na cabeça de cada leitor, um livro é sempre outro livro”. O problema não está na constatação de que a letra é um abismo povoado por muitos espíritos. Está em esconder isso e supor que a leitura, ao contrário, é uma pedra. Leninistas e trotskistas ainda hoje discutem a maneira correta de ler Karl Marx. Freudianos e lacanianos disputam a “posse” da verdadeira leitura de Sigmund Freud. \um veio fundamentalista atravessa essas divergências. Contra os adeptos da leitura dura e encrespada em que a letra se faz grilhão, prefiro o sentido que lhe empresta a literatura, em que as palavras traçam sinuosas em que nos perdemos”.
Em outro trecho, JC declara: “Um mundo sem escrita (sem palavras) é um mundo louco. Do mesmo modo, um mundo intoxicado de palavras – o mundo de Wellington – é uma terra devastada. A escrita não é só uma técnica. Não é algo que se faz, é algo que se sofre.(...) Toda escrita é parcial – atrás da presença luminosa dos traços, inscreve-se uma ausência. É essa ausência que os fundamentalistas, com sua arrogância, desprezam.(...) Sem as palavras o mundo parece mais simples, mas torna-se também mais assustador . A letra pode ser destruída, pode congelar nos porões da ordem, mas seu espírito não se prende. (...) Antes que a escrita se torne pedra, antes que asfixie e mate,(...) morta pode enfim conectar-se com os espíritos que vagam entre as letras. Preserva assim a força das palavras, não como armas de guerra, mas como um fio a que, com grande esforço, nos agarramos”
(José Castello, O espírito da Letra, O Globo, Prosa e Verso, 16 de abril de 2011).
Costumo anotar pérolas sobre leitura que nos levam a inúmeras reflexões. Neste artigo o colunista citado comenta o romance de Yasmine Gatha , Tinta Negra , em Rikkat Kunt, o personagem se aproxima (com leveza) das páginas do Alcorão e dos escribas árabes.
É claro que só os pequenos trechos acima dariam um tratado – sem durezas e encrespamentos – sobre produção de sentido – para o bem e para o mal -; sobre as convicções que são nada mais do que escolhas éticas (ou antiéticas), sobre fundamentalismo no ensino, onde reprodução é “interpretação”; na constatação evidente mas importante de que há o livro que é apenas o suporte, aquele “do copista”, que é a pedra, e aquele livro que ‘vai para a cabeça”, da recriação, da desfiguração e da loucura. E, digamos, acima do Bem e do Mal, a Literatura, na qual nos perdemos em suas sinuosidades e ausências, porque a Literatura não se pretende empedrar, congelar, engessar, dogmatizar enfim “asfixiar e matar”.
Os belos Alcorão e Evangelhos nutrem-se de Literatura à exaustão, mas com o propósito não de libertar o espírito, mas aprisioná-lo no “porão da ordem”. Assim toda uma literatura dita “de elevação moral e espiritual do homem” vem desta tradição de se ler ao pé da letra ensinamentos, arrastando o leitor a um sentido único, a um “senso comum”, exacerbado por psicopatas como Wellington Oliveira. Ao contrário desses a literatura libertária, com suas sinuosidades e ausências, povoam nossa imaginação e nos instiga. A ilustrar citaríamos como libertários um outro Evangelho, o de José Saramago, e mais outro, a obra de Kafka , Jonathan Swift, Cervantes e Lewis Carroll, esses devidamente “infantilizados” para esterilizar o sentido anárquico e desfigurado de seu discurso, porque só um discurso “conexo e coerente” é moralmente aceitável para os fundamentalistas.
Enfim, disse muito pouco ou muito menos que José Castello, mas aqui não se faz uma aposta, aqui o brilhante artigo do colunista é uma luz que se acende para nós sobre o espírito da letra e das letras, e principalmente, nos interessa saber muito e cada vez mais sobre o que nos prende e nos asfixia.
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