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Quarta-feira, 23 de Março de 2011
O conselho de Tolstói

Tolstói anotou em seu diário: “Escrever não é difícil, o difícil é não escrever”. Essa frase deveria ser o lema da literatura contemporânea” (Ricardo Piglia, 2011)

Poderíamos dizer que  não foi exatamente um “conselho de Tolstói” mas um exemplo ele ter abandonado a literatura, coisa que certamente seria de se lamentar e não se regozijar. Quantos deveriam ter o dever moral da fazer tal renúncia, mas não o fazem. Parecem escrever “a metro” e usando a expressão um tanto rasteirinha, escrevem muito e muitos dos quais são uma bela porcaria.

 Ah, mas o que é porcaria para você  e uma porcaria para mim?

Ranganathan dizia que “há sempre um leitor para um livro”, hum... o mesmo que “um chinelo velho para um pé cansado”, mas o ilustre bibliotecário não especificou o quanto esse leitor é complacente.

Pois é, fica complicado, mas não é tão difícil  assim   estabelecer algum parâmetro, porque todos têm aquela “honrosa” exceção, mas vamos tentar:

a)      A desconfiança de que o que você escreve não é bom o bastante é quando é recusado por um punhado de editoras; atenção, há exceções deste caso entre grandes escritores; você ainda não deve desanimar;

b)      Quando você, ignorando o parecer de boas editoras, mesmo assim edita sem selo, ou inventa um selo para publicar; e gasta uma baba! Aí começa o perigo.

c)      Quando você ignora que nove entre dez livros auto-editados não são bons o bastante. Leia apenas um de seus pares.

d)      Quando você participa de uma coletaneazinha de ilustres desconhecidos, entrando com uma graninha de co-participação.

e)      Quando o que você publica fica estocado na sua casa, depois de distribuído a todos os amigos e familiares;

f)        Quando o “grosso” de sua tiragem vai parar na coitada da biblioteca que cuida de passá-la adiante. Nunca vi um “estoque” de  Guimarães Rosa  ou Clarice Lispector aparecerem na minha biblioteca.

g)      Quando você se vale de algum prestígio pessoal para publicar, ou de algum cargo político, que franqueia edições para você como a editoras da Câmara ou Senado, por exemplo.

h)      Quando você se vê tentado a “cometer” uma literatura infanto-juvenil para angariar patrocínios oficiais e “adoção” pelas escolas. Literatura infanto-juvenil é o sonho dourado de maus (e bons também) escritores, por ser uma mina de ouro.

i)        Finalmente, quando você se vale de um tema que tem “mídia” para escrever um livro: aí é marketing, não literatura. Ex. Bullying.

 

Enfim, apontei um bom número de  indicadores – e creio que há mais - em que você pode facilmente se enquadrar.

Para não ser tão radical, sinceramente, não acredito que, se você fez alguma dessas coisas, tenha sido por mal: foi vaidade!

 

Não que você vá seguir à risca o exemplo do grande Tolstói, mas como não escrever é difícil, faça como eu: use à vontade a Internet, essa bênção da modernidade.

 

* Nota: aos amigos que publicam apenas por diversão, em pequenas tiragens, esse artigo não é para vocês, é para os pretensiosos.


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postado por Sheila G Soares às 21:01
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