Não, prezados leitores, não é o Dewey- John, filósofo e educador, é o velho Dewey- Melvil, sim, o bibliotecário, criador da famosa CDD que até hoje as bibliotecas cultuam, a bíblia dos bibliotecários , o código " Hamurabi" da classificação. Pois bem, Dewey ao construir sua indestrutível tabela, partiu de um grupo de 9 perguntas diretas e simples:
1.De onde viemos, quem somos?
2. Quem nos criou?
3.Como entender o mundo à nossa volta?
4.Como nos relacionamos?
5. Como entender e aplicar conhecimento sobre a Natureza?
6.Como entender e apreciar a Arte?
7.Como nos divertir?
8.Quem são e como são nossos heróis, personagens e fantasias?
9.Como registrar os feitos e acontecimentos do Passado para legar às gerações do Futuro?
A primeira pergunta,- De onde viemos, quem somos? - aplicada à tabela, se refere, claro, a categorias filosóficas. É claro que não se vai ministrar filosofia aos pequeninos desde as séries mais iniciais, mas nessa rubrica já podemos introduzir elementos da identidade: seu nome, sua família e sua casa. Já a partir do fundamental (5º ano) já podemos ampliar essa identidade: elementos étnicos , costumes, crenças e folclore e tudo que nos diferencia dos demais povos. Do 6º pra frente, o homem como indivíduo físico e cultural. Já no segundo grau, elementos mesmos de Filosofia que contemplam esses temas.
A segunda pergunta tem um viés religioso - Quem nos criou? - porque Dewey a considerava de extrema importância, por ser cristão fervoroso, e sua tabela é predominantemente detalhada nesse quesito. Porém, a escola pode introduzir rudimentos da Criação, tanto do ponto de vista científico - o Universo, o Cosmos e os seres - tanto quanto ou também religioso, sendo esse último polêmico - Bíblia ou Darwin? Já entre as crianças (do 5º em diante) maiores, as primeiras noções de biologia. Que serão ampliadas pela pergunta 3: como entender o mundo à nossa volta? - até o 5º ano, o microcosmos social, a vizinhança, o bairro e o município, e a partir do 2º ciclo, noções mais aprofundadas sobre o Meio ambiente e biodiversidade, o meio urbano e sua complexidade, conhecimentos geográficos. No segundo grau, aspectos teóricos e críticos, envolvendo Economia, Ecologia e Política. A 4ª, - Como nos comunicamos? a linguagem aplicada, desde a alfabetização até a proficiência na lingua desde as etapas da palavra, frase, enunciado e discurso como construção, sendo (sugestão minha) que a análise morfológica e sintática somente a partir dó 6º ano. A 5ª,- como entender e aplicar conhecimentos sobre a natureza - se aplicaria às Ciências Exatas - Matemática, Astronomia, Ciências da Terra, Invenções e Tecnologia, desde todo o fundamental e no segundo grau, Química, Física e Biologia aplicada, quando entram fórmulas e conceitos, cujos rudimento o estudante já viu na 2ª pergunta. A 6ª - Como entender e apreciar a Arte desde os primeiros até o último ciclo, seria prepará-los a tornarem-se espectadores, o que implica em ver filmes, peças, recitais, leituras,exposições e eventos. Uma variante é também praticar arte como atividade extra-curricular. Sétima pergunta, como nos divertir? - pode estar ou não incluída na anterior, mas de natureza totalmente livre e à escolha do indívíduo estudante: esportes, dança, artes marciais, informática etc. A 8ª - Quem são nossos heróis etc. -e à qual Dewey também oferece extensa tabela é a Literatura, que se refere a conhecer autores tanto universais quanto nacionais, não como especialistas, mas apreciadores e possíveis produtores. Tal condição exige uma capacitação apurada e dedicada do desempenho na língua ao longo do tempo proposto pela 4ª pergunta. E finalmente, a 9ª - Como registrar fatos e acontecimentos etc. - a História deve ser introduzida à medida que se estuda a nossa identidade, nossa origem e, principalmente, entendida como registro de fatos importantes para entendermos o país e a Humanidade como ela é hoje.
As perguntas são fios condutores que podem auxiliar a montagem de currículos e não um esquema pedagógico rígido, mas certamente Dewey nos oferece uma alternativa à celebre pergunta recorrente nos estudantes sobre as disciplinas: por que estudamos isso, por que preciso disso? Uma outra coisa de grande valor é que a proposta é temática, ou seja as disciplinas vêm responder aos temas e não o contrário. A disciplina é necessária para entender determinado tema, mas os temas é que a subordinam. Não vejo nada mais inovador! E pensar que a ideia vem lá do século XIX...
JULIANA VAZ
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
MARCO RODRIGO ALMEIDA
DE SÃO PAULO
No capítulo 32 do livro "As Aventuras de Huckleberry Finn", quando tia Sally pergunta se havia feridos num acidente com um barco a vapor, o garoto Huck responde: "Não. Só matou um negro"."Que sorte; porque às vezes tem gente que se machuca", diz, aliviada, a tia.
Publicado por Mark Twain (1835-1910) em 1884, o romance conquistou milhares de fãs apaixonados e também muitos detratores que o acusavam de racista por conta de passagens como a descrita acima. Por anos foi proibido nas escolas dos EUA.
Quase 130 anos depois, o livro continua a provocar controvérsia. Uma nova versão de "Huckleberry Finn", que deve sair em fevereiro nos EUA pela NewSouth Books, substitui a palavra "nigger" [algo como crioulo] por "slave" [escravo].
Termo racial pejorativo, "nigger" aparece mais de 200 vezes no livro. Autor da ideia da troca, o professor universitário Alan Gribben disse que se sentia constrangido em ter que pronunciar a palavra nas aulas.
Professores e tradutores brasileiros ouvidos pela Folha foram unânimes em criticar a proposta.
"A onda do politicamente correto pode levar ao apagamento do processo histórico", disse Sandra Vasconcelos, professora de literatura na USP. "Como professora, não posso concordar com essa "limpeza". O uso da palavra deve ser interpretado de acordo com o contexto."
Heloisa Helou Doca, professora de literatura americana da Universidade de Marília e autora de tese de mestrado sobre Twain, diz que o autor, na verdade, era um idealista que lutou pelos desfavorecidos, incluindo os negros.
"Twain deu luz a personagens subalternos. A intenção dele era parodiar a mentalidade racista do americano médio do século 19."
Para Doca, mais útil seria incluir notas explicativas no livro. "O importante é mostrar ao aluno o sentido do uso do "nigger" e outras situações que despertam polêmica."
LOBATO
O caso guarda semelhanças com o de Monteiro Lobato, cuja obra "Caçadas de Pedrinho" (1933) foi, no ano passado, acusada pelo Conselho Nacional de Educação de conter trechos racistas. Mas os dois autores se aproximam não apenas por terem sido alvo de julgamentos alheios a seu tempo. Admirador de Twain, Lobato trouxe a prosa do autor americano para o Brasil, na década de 30.
Sua versão de "Huck Finn" contém as palavras "negro", "escravo", "preto" e variantes. Em uma passagem, "big nigger" vira "negrão".
Tradução mais recente do clássico, feita por Sergio Flaksman nos anos 90, traduz o trecho como "escravo alto", mas também usa "negro" ao longo do livro.
Sobre a alteração na nova edição americana, Flaksman disse que "me deixa indignado que qualquer editor ou revisor considere legítimo qualquer manipulação a posteriori de uma obra literária".
Tradutores fazem coro. "É o equivalente a estuprar um livro", afirma Jorio Dauster. "Sou contra as atualizações porque desfigura a obra de arte", conclui Ivo Barroso.
OPINIÃO
Sanitarização de obra de arte é monopólio da estupidez
IVAN FINOTTI
DE SÃO PAULO
O que é uma obra de arte, senão um retrato de seu tempo? Não mais, segundo atuais padrões do império norte-americano. Para a nação mais politicamente correta do mundo, voltar atrás e refazer a realidade como ela deveria ter sido (na opinião de alguns) não é problema.
Atentados contra a realidade acontecem há milênios. A própria história, com seu clichê "escrita pelos vencedores", não é fonte de verdade absoluta.
Mas o que espanta no caso desta semana é que quem propôs a alteração no livro de Mark Twain é um professor universitário. E quem concordou são pessoas supostamente comprometidas com as letras, editores de livros.
O professor disse que não quer sanear a obra de Mark Twain. "A crítica social aguçada continua lá", opinou ele. Sim, está lá a crítica social que ele considera digna de estar lá.
Se Mark Twain escrevia crioulo para se referir a escravos em "As Aventuras de Huckleberry Finn" (1884), e não se usa mais essa alcunha no século 21, trata-se de prova incontestável de evolução social. Ao censurar a palavra, o professor e a editora desrespeitam 126 anos de luta por direitos humanos.
Essa mesquinhez histórica não é monopólio norte-americano. Quando a igreja torturava pessoas, aproveitava para pintar panos em cima do pênis e seios de seres bíblicos retratados em quadros e afrescos.
FONTE: Folha de São Paulo, 8 de janeiro de 2011 (Ilustrada) via http://sergyovitro.blogspot.com/2011/01/h
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