Esse primor de artigo, cujo conteúdo endosso na íntegra, vai no rastro da crítica que faço ao que chamo de escolarização da leitura literária. Um dos vícios capitais de muitos que se dizem "incentivadores/formadores" da leitura:
Coleção transforma pbras clássicas em tristes arremedos literários. Wilson Alves-Bezerra * O Globo - Prosa e Verso 03/07/2010 p.4
Insisto em capacitação. Os professores hão de ficar admirados com a audácia de uma bibliotecária, mas longe das comparações, isso me lembra uma historinha de Rui Barbosa que não sei se é verdade. Dizem que ele, quando viveu em Londres, colocou um anúncio onde dizia "Ensina-se inglês". Diante do espanto geral, ele colocou "Ensina-se inglês aos ingleses". Estou mais ou menos assim, não que venha sacar métodos ou pedagogias ou grandes novidades, mas uma filosofia dentro do princípio do Menos é Mais.
O que chamo de capacitação para a leitura é o letramento progressivo por aquisição de habilidades, que vai desde o reconhecimento dos simbolos gráficos até a completa proficiência, que é ler reconhecendo os discursos dos diferentes gêneros, ter idéia ou domínio de denotação e conotação, entonação e fluência oral adequada a cada gênero, além da produção de sentido.
A pedagogia dos materiais a se utilizarem de acordo com cada faixa etária é por conta, é claro, do professor. Porém, as demandas pelas categorias gramaticais (o léxico) devem vir naturalmente, nunca se sobrepondo, mas a serviço dessas competências, à medida que aparecem. E facilmente aparecerão em virtude dos erros na prática. De que servem listagens de preposições, conjunções e advérbios etc, se não estão aplicados aos textos? Se não são estudados no contexto? Idem para ortografia , regência e tudo o mais?
A escola deveria se debruçar nesse projeto de capacitação pelos primeiros cinco anos. Por que? Porque a partir daí começa o ciclo das disciplinas. As disciplinas são os próprios discursos preponderantes. Matemática é abstrata e lógica; História é narrativa, Geografia e Ciências são preponderantemente descritivas, enfim a língua é o guia para todos os saberes, e se já não tiverem algum domínio sobre ela, não terão sobre as demais matérias. Certamente há variáveis, eu sempre tive bom domínio da língua e sempre fui péssima em Matemática.E você pode ser bom em Matemática e ruim nas demais. Mas acredito, como em tudo que boto não só fé como observação de muitos anos, que um bom desempenho na língua contamina positivamente os demais campos do saber. E anima os pequenos a lerem.
Dito assim, parece simples. Menos é Mais. Menos o que? Menos crenças. Crenças em que, reconhecidos os símbolos gráficos, estão alfabetizados. Não estão. O aluno alfabetizado não lê aos tropeços. Outra:a crença de que reprodução é interpretação. Qualquer criança repete qualquer história que viu ou ouviu. Isso é reproduzir. Interpretar é ir além do que está explícito, claro, desde que o texto tenha afetado o leitor em algo. Por isso, incentivo-o (mostrando)a ler piadas, adivinhas, charadas e histórias em quadrinhos. O simples riso de uma criança numa dessas leituras é um sinal innequívoco de que o texto a afetou. De que ela realizou a produção de sentido.
Ainda sobre a produção de sentido, há uma intervenção que chamo de violência: roteiros pré-formatados de leitura que saem das editoras. A recepção não pode ser programada! Outra: edulcoração de temas pela substituição por ficção, em lugar do discurso dissertativo, também protagonizada pelas editoras. É um desserviço ao reconhecimento de gênero dos discursos e à desenvoltura discursiva. Quando pedirem para os alunos falarem em Revolução industrial, serão aprovados se contarem uma historinha de ficção? E, finalmente, para açucarar um clássico fazem adaptações que deformam importantes obras da Literatura Universal que, nem de longe, é aquilo que é apresentado. Por quem? Nem precisa falar.
Quando tinha 13 anos, li Crime e Castigo, de Dostoiévski e li A Metamorfose de Kafka. Gênio? Não. Adquiri competência necessária em leitura. Simples assim.
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