Há muitos esforços louváveis em favor da promoção da leitura entre crianças e adolescentes partindo do pressuposto de que ler é algo pessoal e transferível. Partilho dessa posição. No entanto observo uma montanha de recursos - programas, projetos editoriais belíssimos, a associação com entretenimento - que se investem e que presumo que vão para o ralo das coisas inócuas. A espetacularização da leitura, sobre que Marisa Lajolo discorreu tão bem,a demasiada crença em eventos e marketing, a crença na infantilização da informação para alavancar o interesse da crianças em temas relevantes, enfim, muitos acham que teem que fazer bilu-bilu ou colocar um nariz de palhaço cada vez que estão diante de uma plateia que "precisa ler". Com objetivo de que tais ações deem resultados efetivos na escolarização. Em alguns casos isolados dão. Não há dúvida de que as crianças que leem por si mesmas terão melhores resultados na escolarização, isso é facilmente comprovável, por que a competência em leitura alcança todas as disciplinas. O prazer de ler porém é pessoal, e diferentemente do ato de ler, é intransferível. É inegável que pode haver "contaminação" deste prazer, mas jamais como fenômeno de massa, como muitos esperam. Uma feira de livros com a imagem de alegres crianças portando livrinhos é adorável, mas a afluência a esses eventos não pode se converter em um dado no desenvolvimento do leitor miúdo. Agora vamos ao ponto. O que leva ao desenvolvimento é a capacitação. Mas alto lá, a capacitação não vai garantir que o pequeno seja um "leitor formado"no sentido de consumir livros. É um direito de qualquer pessoa não gostar de ler, como acentuou Daniel Pennac em seu Decálogo do Leitor; há os que não gostam de música, de circo, de teatro, enfim das manifestações culturais, e ninguém os obriga a consumirem o que não gostam, como se faz com o livro. Mas se a pessoa não gosta de ler por opção, como é seu direito, por outro lado precisa de habilitação para ler contratos, bulas, rótulos de mercadorias, material publicitário, receitas, regulamentos e leis, discursos de políticos, notícias, manuais de instrução, operações matemáticas, e a mais variada gama de publicações de que vai precisar para exercer sua cidadania. Alguns dirão que é pouco. Não, é muito dentro do princípio inglês do Menos é Mais. Mas não o bastante para nossa sociedade e comunidade escolar, porque o paradigma é a erudição. E essa erudição, todos sabemos, vem do alto da pirâmide letrada: a universidade. A universidade, o "ideal de todos". Evidente que a universidade representa uma perspectiva profissional. No entanto, é triste ver que quando se pergunta a um jovem sobre seus planos futuros, ele diga de uma maneira vaga "vou fazer uma faculdade" em vez de dizer quero ser médico, engenheiro ou professor. O que está colocado é o reconhecimento que ele deseja alcançar com uma "faculdade"- fora disso ele é "mané"- e não que tipo de habilidade é seu desejo real exercer. Enfim, continuaremos com essa conversa.
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