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Quarta-feira, 10 de Março de 2010
“VIVER A VIDA” OU OS NOVOS CARLISTAS

                                                                                 

“Rei morto, rei posto”, diz o adágio. Com a passagem de um outro Carlos, o senador, sucede-lhe o Manoel, a julgar pela popularidade de Viver a Vida, novela daquelas dos tempos em que tudo que se fazia, era “antes e depois da novela”, e para lembrar o velho Aristóteles, provocando uma verdadeira catharsis  nacional. Fato é que Manoel Carlos, assim como outrora o senador baiano, cada um em sua seara, conseguiu impor sua grife –quem sabe, por exemplo, quem dirige “Viver a vida”? A TV, e especificamente a novela, colocou o roteirista em seu justo lugar, coisa que o cinema não fez até hoje. .Enfim, Manoel Carlos formou um séqüito de seguidores fiéis que provavelmente nenhum autor tenha conseguido. A esses seguidores, chamo de ‘novos carlistas’. O autor repete a fórmula que todo mundo conhece, sabe-se no que vai dar, mas ninguém levanta o traseiro do sofá, não atende o telefone, não está predisposto a se abrir para o inesperado, para o diferente e o novo, embora se acrescente o ingrediente do merchandising social. Se a linha da história nada tem de inovadora, o que me desafia é entender a essência desse “carlismo”. A hipótese é que esse público que acompanha essa e outras novelas do autor, na verdade procura aninhar-se justamente na segurança que ela oferece em se repetir. Um segredo do passado a se revelar, situações previsíveis, uma certa dose de sadismo do autor, como esticar a via crucis de um personagem,  e a obsessão de um ou de outro. Na verdade, a história evolui menos do que as situações repetidas – regra: novela se faz de repetição – a alcoólatra tem várias recaídas, como se o subtexto fosse “a vida é assim mesmo”, nessa mesmice, conformem-se em seus sofás, passa o subtexto: amanhã quando vocês chegarem em casa, não se preocupem, vão ver a mesma coisa, ficar com a sensação de fazer-o-quê? - o espectador sensível se irrita às vezes, mas é assim mesmo, como a vida, tem pessoas hipócritas, fracas, violência, o trânsito é ruim, a fila do banco e da Previdência grandes - e graças à paciência com as novelas, tenho paciência com as filas,- o dinheiro curto, o chefe chato etc e assim a gente “vive a vida”. O manoelcarlismo é o protótipo deste modelo da falta de surpresas – a surpresa é pífia e simplória, quem-vai-acabar-com-quem e os maus- serão-punidos e os bons-recompensados - e aí é que mora o conforto. O público, não quer surpresas, nada que o estresse mais – uma novela estressante seria fatal, ele não agüentaria. Não quer chegar do trabalho e levar uma bordoada na cara. Não quer que lhe joguem na cara o que não quer ver e ouvir. Ao contrário da identificação, ele quer se sentir sadio, perto dessas mazelas todas – ele não é aquela neurótica ou neurótico ali da telinha, “graças a Deus”. O inferno são os outros. O efeito é intencionalmente escapista. As coisas retratadas acontecem realmente na vida, porém não da forma como é retratada, o que lhe dá disfarce de realidade. Há pouquíssimos momentos de humor, o pouco humor aparece na superficialidade das mulheres “resolvidas” e por sinal, ricas. Ricas e sentenciosas. No mais, as mulheres ou são “madalenas arrependidas”, ou melhor, Helenas, tipo século XIX. Ou estúpidas. São estúpidas porque apaixonadas ou apaixonadas porque estúpidas? A Helena, como as demais helenas, é morna. No final tudo é morno, tentando um naturalismo compatível com o horário, porém muito, mas muito menos eletrizante do que a vida do Rio de Janeiro. È mais seguro não sair para ir ao cinema ou ao teatro. E finalmente, a tônica de que toda questão existencial humana é apenas de ordem sentimental. Novelas não consultam o IBGE, mas o público de novelas. O ser humano, particularmente o feminino, nas novelas,é movido por um único objetivo: o parceiro ideal. Como se hoje quase a metade das mulheres no país não fossem solitárias  chefes de família que seguram todas as barras sozinhas, umas felizes, outras não. Por outro lado, a solidão é condenada como falha grave de caráter, aleijão ou perversão, quando sabemos que é cada vez maior no mundo o número de pessoas sozinhas por opção. Esse personagem solitário e resolvido é absolutamente proibido nas novelas.Casamento é o mote conservador. Não exclusivo da cartilha carlista, é verdade. Quem morreu é porque estava sobrando; número ímpar não pode. Mas o carlismo, como o do senador baiano, é extremamente conservador e se o é, façamos justiça, é porque assim o quer o público, a quem Manoel Carlos finge que contraria. Ele demagogicamente faz o que o outro, o Antônio, fez com seu eleitorado, alimentando e realimentando o auto-engano das pessoas. Que pessoas são essas, daria um belo estudo. Roteirista de novela transpira muito e cria pouco. Basta apenas começar com uma linhazinha de história banal; o resto o público é quem dá as cartas. Para todo o sempre, e com intervalos, amém.
 
 
Sheila G. Soares
sheilagsoares@gmail.com
 
 
                                              


postado por Sheila G Soares às 21:09
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