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Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009
A literatura em perigo

Ao saber da publicação do livro somente essa semana, tive a grata satisfação de ganhar um aliado de vulto para minhas ideias, Tzvetan Todorov, conforme o comentário perfeito de Carol Bensimon, que transcrevo aqui: 

A Literatura em Perigo de Carol Bensimon   April 23, 2008

Category: Técnica & Assemelhados — bensimon @ 1:31 pm
Acabo de publicar esse post no meu blog pessoal, e decidi publicá-lo aqui também. Talvez faça até mais sentido aqui.
Depois de ver dois professores encantados com La Littérature en Péril (A Literatura em Perigo), de Tzvetan Todorov, resolvi finalmente encará-lo (e dizer “encarar” não é lá muito justo, uma vez que o livro é fininho fininho). Todorov é um dos grandes caras da teoria da literatura. Nesse livro, porém, de 2007, não há nada de acadêmico. Alguns dizem inclusive que é uma espécie de mea culpa de fim de vida. Explico: Todorov foi um dos teóricos que transformou o estudo da literatura. Antes baseado em biografia de autor e achismos sobre o sentido do texto, passou-se a encarar o texto em si como objeto de estudo a fim de analisar os seus mecanismos.
Mas Todorov nos relata que, na França, isso teve efeitos devastadores no ensino da literatura em colégios, pois os professores fazem com que crianças e adolescentes analisem as obras dentro dessa perspectiva. Ou seja, ao invés de pensar no que o inseto gigante de A Metamorfose está nos dizendo, nos valores transmitidos pela obra, no, tenho medo de usar essa palavra e uso com ressalva, mas vá lá, no sentido da obra, pergunta-se aos alunos que tipo de narrador o texto utiliza, pede-se definições e demonstrações de termos técnicos, como analepses e prolepses, e assim por diante. Tem cabimento? Nenhum.
Como resultado disso, ainda segundo Todorov, cada vez mais as pessoas se afastam da literatura (ok, além dos n outros motivos que nós podemos declamar em coro). E, ao analisar o que está implicado nessa crise da literatura, o autor chega a conclusão que, de modo geral, o escritor contemporâneo francês de insere em três categorias pra lá de duvidosas.
A primeira: o escritor niilista. A vida não tem sentido, então vou curtir (me parece que esse existe há anos, mas tudo bem. Digamos que o niilismo atual explicaria porque os beats e bukowski e a meia-boquice do John Fante estão na moda). O segundo: o escritor auto-centrado. Eu tenho a tendência a achar que essas duas primeiras categorias são, no fundo, a mesma coisa. Vide Houellebecq. Mas sigamos. O terceiro: o autor para agradar acadêmico. Nessa entraria quase toda a meta-literatura, que não interessa a ninguém, além de acadêmicos e escritores.
O que é um bom gancho para o meu fechamento: se La Littérature en Péril tem um mérito, esse mérito é nos lembrar que, no fim das contas, literatura trata de questões humanas. Portanto pouco vale um guri de colégio saber destrinchar um texto. Deixe o trabalho sujo para os acadêmicos, e mostre ao guri o que o texto está dizendo sobre o mundo. E, em se tratando de escrever, mesma coisa. Sempre bom lembrar que a técnica está (ou deveria estar) sempre subordinada às sensações que quero passar com esse texto, às questões que quero levantar. E esquecer disso é condenar a literatura a meia dúzia de pessoas mostrando umas pras outras os seus contorcionismos formais e estruturais, incapazes de provocar alguma emoção, que não seja aquela piscadinha de olho: ahá, belo truque, hein?
 


postado por Sheila G Soares às 19:11
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Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009
A Capitu de Luís Fernando Carvalho

Não poderia passar sem registro aqui a minissérie "Capitu" que Luís Fernando Carvalho (LFC) dirigiu para a tv Globo em dezembro último.

Se aqui falamos em "releituras", várias delas são permitidas pela variedade de recursos cênicos e referências numa cesta riquíssima que o diretor nos proporcionou.

Assim como nas outras séries, a tentação do fácil não o fisgou, ao contrário, cada vez mais contempla, e  surpreende, seu público com mais audácia , desta vez confrontando as imagens beirando ao burlesco com a escrita afiada da narrativa machadiana, na voz de um bentinho patético, desglamurizado e encurvado pelas dúvidas que, como um verdadeiro "capitão Tornado"  - ou Tormenta - que, à la Ettore Scola, enfrenta suas tempestades interiores, desde as primeiras brumas.

Ao contrário do que se poderia esperar , os "pincéis" de LFC com sua gama de cores, luzes, matizes, figuras bizarras, de uma estética felliniana, sua liberdade irrestrita nos adereços, desde um impactante Otelo de Orson Welles,uma  música contemporânea,  a um inusitado celular em cena por mais alegóricos fossem os elementos de apoio à narrativa, nada roubou a magia do poderoso texto.

O  que mais ressaltou, nesse encontro visual entre Dom Casmurro "das letras"  , o nosso tão badalado Dom Casmurro, tão banalizado pela escola, e a telinha com  "cheiro" de cinema italiano (expressionista) dos bons, foi a incorruptível e, por isso, incomparável  prosa do nosso mestre, que saltou da moldura fina que Luís Fernando Carvalho lhe emprestou em toda sua forma, muito embora fossem trechos. (Um trecho de Machado valeriam quantas obras?)

Seria talvez  audácia demais  também dizer que, guardadas as devidas comparações, vista a obra e vista esta moldura, Capitu não seria a nossa Madonna (Esta com poder nos olhos e aquela no sorriso)?

 É ou não é uma releitura possível?



postado por Sheila G Soares às 15:56
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