Todos temos nossos gurus da leitura. Eu tive um só, meu pai. Os outros só ratificaram a minha paixão fundada por uma pessoa que nos fazia tropeçar em volumes em casa.
Papai tinha mania de coleções. Coleções de obras-primas, de obras de um autor, como Eça de Queirós, Machado de Assis, tirando o J. Cronin, havia os Nobel e os clássicos, fora os livros de Medicina, que utilizava para sua consulta.
Meu pai nunca comprava o livro unitário. Inclusive para os filhos, coleção de Monteiro Lobato, Tesouro da Juventude, Clássicos Jackson. E raramente me lembro de vê-lo lendo um desses volumes. À mesa, porém, comentava trechos e citava alguns poemas que ouvíamos admirados desde pequenos.
Minha mãe preferia jornais e revistas. Gostava de política e lia a Útima Hora, a Manchete. Papai, o Globo, na época o jornal mais conservador do país. Os jornais sempre formaram monturos em minha casa, muitos recortes no meio dos livros, porque não tínhamos esse meio de armazenamento fantástico que é o computador.
Hoje ainda faço monturos na minha casa e separo os suplementos culturais para " ler depois". às vezes, jogo fora sem ter lido, com certa culpa.
Já tive obsessão por estar com a sensação de perder alguma informação, uma espécie de ansiedade da informação, como se quisesse mantê-las sob meu controle. Com o tempo, a mania abrandou, mas ainda me atiro com voracidade ao material impresso.
Para mim, a informação via TV é incompleta e fugaz . Até porque nessa mídia tempo é dinheiro.Ela apenas passa os fatos como um pequeno registro delével, mesmo que repetidamente.
O computador tornou-se a base da consulta para tudo, mas dificilmente passa o conforto quanto ao aprofundamento que a obra impressa permite. Não que não exista matéria impressa em papel que seja fugaz e superficial, mas ela pertence ao segmento das revistas fúteis das modas e celebridades. E de TV.
A leitura de matéria especializada e acadêmica,na telinha do PC, é absolutamente insuportável, não se compara ao livro aberto no colo que, desde sempre, fez parte da minha rotina.
Tudo isso devo ao meu guru, meu mentor intelectual, meu pai.
Fale você também sobre seu guru da leitura. E comente sua experiência com leitura.
Nós, profissionais do livro, pensamos no nosso produto não só em termos de suporte físico como em seus conteúdos e seu alcance.
Das décadas de meados ao fim do século 19, e até bem pouco tempo, anos 60-70 do século 20, produziam-se obras “de coleção”, cujo padrão era capa dura e pesada. Mas vejam como isso dizia respeito ao seu próprio tempo e costumes . No primeiro período, as pessoas mais ricas e cultas ficavam recolhidas em sua casa, após o jantar, mal o sol se punha, dirigiam-se aos seus “aposentos” para ler ou à sua biblioteca particular . Ou ficavam na sala ou “salão” de leitura, onde eram comuns os saraus literários. Nos “aposentos” ou quartos invariavelmente, existia uma grande escrivaninha de madeira de lei, uma luminária com luz direta, uma poltrona para ler. E material de escritório, pena, tinta, tinteiro e mata-borrão.
Muito da literatura e artes plásticas desse período retrata esses ambientes. O livro, o capa-dura, era pensado para se perenizar através de gerações e gerações, atravessar reformas ortográficas até acabar, como praticamente acabou. Os capas-duras quase sempre levavam caracteres dourados nas lombadas e serviam para enfeitar em belíssimas estantes, como um objeto de contemplação como outro qualquer. O quanto dessas obras não eram mais fetiches do que de fruição? Tanto que se falava em compras de “livro a metro”, onde o colecionador as comprava, não as lia, mas a exibia, porque era de “bom tom” entre as classes médias e altas. Hoje essas obras pesadas- algumas tinham até reforço metálico nas capas - são nômades à procura de pouso, por justas razões de época. Os espaços diminuiram; as pessoas se deslocam o dia todo e lêem menos e em trânsito; não há lugares específicos para leitura que converge cada vez mais para as escolas. Hoje as coleções saem em brochura – leves para se ler- e não para serem apreciadas, embora persistam muitos bibliófilos não leitores.
Ainda sobrevive uma cultura de “durabiidade” e preservação, em algumas instituições há a tradição do tombamento, não que este seja reprovável , mas deve ser criterioso, já que nem toda obra necessita ser encadernada “para o futuro”. A maior parte das publicações, com exceção das de domínio universal , fica datada e deve-se deixar o tempo cuidar dela e se extinguir naturalmente, como o fim de um ciclo de vida. Se voltar, reedite-se. O grande desafio atual para as editoras é manter intactas matrizes ou registros, em arquivos tipográficos ou eletrônicos, daquelas obras de repercussão no passado e que, a qualquer momento, podem voltar ao mercado.
Os capas-duras devem passar por séria avaliação e que se encontrem formas de, a bem do interesse público, proporcionar-lhes a leveza não só no estilo como no suporte, como queria Calvino em Seis Propostas para o Terceiro Milênio.
Ou senão, como na frase de Machado de Assis, em D. Casmurro, que” a terra lhes seja leve”.
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