JOVENS LEITORES
Transcrevo partes de um artigo que ratifica minha opinião sobre a relação (péssima e forjada)dos jovens estudantes com o bruxo de Cosme Velho:
"Machado de Assis é uma porcaria"
Por Lud Inácio em 1/7/2008 *
A acusação de que os jovens brasileiros têm preguiça de ler é injusta e infundada. O fenômeno Harry Potter testemunha a favor. O Brasil assistiu boquiaberto a miúdas crianças devorarem avidamente infinitas páginas de um pesado volume cujas mãozinhas mal conseguiam sustentar. Da mesma forma, é mentira que criança não gosta de tomar remédio. Ao contrário, é preciso vigiar o frasco de xarope, pois o líquido colorido, cheiroso e docinho lhes aguça a atenção. O segredo do best seller infantil foi justamente este: transformar um amaríssimo remédio em deliciosa guloseima.
Na verdade, os pequenos não-leitores são vítimas de ignorantes imposições que fazem dessa atividade não uma prazerosa fonte de crescimento e informação, mas um enfadonho e torturante castigo. Um mau exemplo disso é a teimosia de desastrados professores, que insistem em empurrar Machado de Assis goela abaixo de uma criança de 4ª série. O resultado é que ela toma ódio desse e de outros gênios – aliás, de qualquer literatura.
E deve-se, no caso, dar razão ao educando, pois Machado é insuportavelmente inadequado para a idade. Seu vocabulário e suas construções frasais são vetérrimos, herméticos e sua filosofia inalcançável para tão incipiente formação. Os incautos mestres querem que a criança tome a bicicleta pela primeira vez e já saia pedalando com destreza. É preciso que se coloquem aquelas rodinhas laterais até que o novo ciclista aprenda a se equilibrar. Assim, um dos melhores livros de toda a literatura brasileira é o Escaravelho do Diabo, se lido aos 10 anos de idade.
Em descompasso com o aluno, a escola teima no ensino cronológico das correntes literárias e respectivas obras. Mais proveitoso seria começar pela literatura contemporânea, até que um dia ele se interessasse por texto cheirando a mofo – cantigas de amigo e maldizer.
Mas há coisa pior: despreparados professores usam a leitura como instrumento de coação. Alguns, para recobrarem a disciplina e a ordem da sala, ameaçam seus alunos com atividades de leitura. O resultado é previsível.
Em suma, a criança e o adolescente não lêem porque a escrita é intragável. A começar pelo vocabulário, embaraçoso, incompatível com sua deficitária formação escolar.(...)
Os pais dão sua contribuição: são o melhor exemplo do que não se deve fazer. Prostram-se mudamente diante da TV e dali só saem para dormir. Desconhecem que um dos melhores métodos de ensino e aprendizagem chama-se imitação. As crianças copiam o que vêem, ou melhor, o que não vêem. Se não flagram seus pais degustando um bom livro, não repetirão a experiência.
(...)
Habituados a elogios de colegas e de respeitadíssimos intelectuais, os jornalistas ou mesmo escritores não têm consciência de que suas obras de arte são modorrentas leréias. O leitor é excluído porque não dispõe de instrumento para decifrar tão enigmática composição. É como se ela estivesse redigida em japonês arcaico de trás para frente.(...)
É preciso recorrer a profissionais de outras áreas: pedagogos, psicólogos, educadores, bem como a jovens talentos jornalísticos inatos. Só assim será possível a resposta:
– Aí! De-mo-rô, meu.
Ler na íntegra em Observatório da Imprensa www.observatoriodadimprensa.com.br
Ok, eles pegam poemas, crônicas, contos e os maravilhosos romances “engolem” de qualquer jeito sem digerir – a l i e n a d a m e n te - porque ainda não têm maturidade para saborearem a iguaria mais fina da literatura brasileira.
Isso é um atentado contra o bom gosto, contra a estética, contra tudo que representa de bom e de mais universal em nossa literatura, e que passa pelos jovens com sabor de jiló ou óleo de rícino para cabecinhas ainda tão imaturas.
Resultado: irão odiar Machado de Assis , como elas mesmo dizem, e com toda razão, e esse ódio tem consequências: mais tarde, a não ser para os raros que trilharem o caminho das letras, jamais retomarão o nosso magnífico autor.
A mentalidade positivista reza que as crianças devem participar da passagem do evento, até aí nada demais, porém fazê-los ler a obra de Machado vai uma distância estratosférica!
Quem tem que ler Machado é o professor. Colher passagens deliciosas que são muitas, passá-las aos pequenos, aí sim, é dever até com a pátria , mas mandá-los, como um rebanho, procurar por “um tal de Machado de Assis” que “a professora mandou ler”, prefiro deixar à apreciação das autoridades e lançar um SOS!
Às autoridades em educação e cultura,
À academia de Letras,
Às universidades!
Os índices de lanterninha do Brasil na Educação se devem em muito a essas práticas. De professores que não estudam, de professores que não lêem, de professores que não buscam melhores maneiras de levar a excelência a seus educandos.
Como diz Edgar Morin, as crianças não precisam de “cabeças cheias”, mas de “cabeças bem-feitas”.
E não será por esses meios que se conseguirá. Quem ama Machado de Assis sabe.
Todas as bibliotecas fazem periodicamente remanejamento, desbaste e descarte em suas coleções e todas têm problema de se desfazer desse material, que não pode se misturar ao lixo comum. Porém, as bibliotecas se arrumam como podem, empurrando obras em péssimo estado para bibliotecas “mais carentes”, para não ter que jogar fora.
Os catadores de papel profissionais torcem o nariz às coleções de capa dura, e às enciclopédias gigantescas que ocupavam várias prateleiras, e que hoje são, sim, admitamos, um transtorno para bibliotecas - aquilo foi um dia orgulho dos colecionadores. Ninguém que tenha apuro cultural deixaria de admirar a beleza e riqueza de informações de uma Delta La Rousse, uma Mirador e uma Britânica. Os sebos tampouco as querem por perto, porque não há mais demanda satisfatória para elas. Estão em CD-ROM ou nos seus sites. As impressas jazem, estragando em depósitos.
Certamente há algum lugar para obras rejeitadas nos municípios e em outros estados, mas não se tem esta informação em mãos de imediato. Podemos dizer que livros cujo destino são sebos, doação e reciclagem estão órfãos? Receio que sim.
Sabe-se que se produzem mais livros no mundo do que se consome. Podemos avançar na hipótese de que este é um terreno de política cultural para o qual mais se faz vista grossa. E aliás, em se tratando de “grosso”, o grosso desse contingente são, para variar, os livros didáticos. E isso é competência do governo federal, que vive alardeando os milhões de exemplares comprados para distribuição. E dos quais muitíssimos, em não muito tempo, vão parar... no lixo! Felizmente aqueles livros para uso definitivo ficam mesmo nas casas das pessoas, ou circulam em diferentes lugares, desde as bibliotecas aos sebos e camelôs.
Fazer vista grossa a essa situação significa fazer vista grossa à questão ambiental. Ou seja, qual o limite da produção de massa de papel, no atual cenário de cuidados com o meio ambiente? Daí a importância de uma política seletiva tanto na área de produção, como as tiragens, quanto na de guarda e reciclagem do material rejeitado, que deve beirar à ordem de milhões de toneladas, se tivermos como se fazer levantamento em todos os estados. Sem falar do que isso pode representar em economia.
Mas quem está se dedicando seriamente a isso? Ninguém, porque “não se joga livro no lixo”. É o livro no domínio do sagrado. Grande parte das pessoas, em nome desse axioma, “doam”, quando na verdade estão se desfazendo de livros, em geral imprestáveis - ninguém vai usar, como anuários,guias, catálogos em geral, publicações de uso temporário - por medo de descartarem, pela falta de orientação de como e para quem entregar. É um “escândalo” noticiado nos jornais, para o senso comum, achar livro no lixo, mas não há uma política para o livro rejeitado, como há para o papel.
Qualquer bibliotecário sabe quais publicações não vão mais ter uso em sua biblioteca, mas não sabe que destino lhes dar, já que a biblioteca precisa dar lugar aos novos em sua estante. E também sabem que tampouco elas vão ter uso em outras.
Uma idéia seria criar em cada município, ou nas capitais, centros receptores e de triagem com as doações (até com veículos para receber em domicílio) com gente quailificada para classificar (por tipo e assunto), selecionar e cadastrar instituições e escolas que teriam interesse em receber este material, depois de avaliação criteriosa.
A idéia é simples e, creio, pouco onerosa. Quantos galpões e prédios do governo existem por aí sem utilização, que podem ser aproveitados em prol do livro?
É um primeiro passo para se acabar com a orfandade do livro.
Com o advento da Internet temos algo realmente estarrecedor: a disseminação da mediocridade na sua expressão mais completa.
Fosse só a mediocridade, não seria tão mau assim, afinal seres normais tem lá seus direitos de expressão.
O problema é essa mediocridade vir com a falsa assinatura de talentos consagrados nas áreas de comunicação e literatura.
O campeão entre as vítimas dessa impostura é Luís Fernado Veríssimo. Faço a minha parte, quando vejo que o texto é falsamente atribuído a ele, alerto imediatamente aos que me mandaram. Nunca repasso.
No entanto, a proporção dessa propagação é igualável a um tsunami. Textos piegas, pueris, e beirando o ridículo são atribuídos a Veríssimo.Raras vezes me engano, mas uma ou outra crônica meio que imita o estilo do escritor gaúcho, e então procuro socorro em fontes que possam autenticar esses textos, mas não encontro, o que me resta é uma sensação de indignação e impotência.
Ocorre-me agora que poderia existir uma espécie de central de autenticação para autores na Internet, como existe a Biblioteca Nacional no que se refere a registro de livros. O autor (verdadeiro) registraria nesse site, mediante um protocolo secreto, ou senha, sua crônica ou artigo, então o que não tivesse esse registro do autor seria falso.
Costumo consultar a autenticidade nos lugares onde LFV publica, como O Globo, A Folha, por exemplo, mas nem sempre acho resposta satisfatória. É necessário um sistema de segurança, não só para falsos textos atribuídos ao autor, como textos autênticos "tungados". A segunda opção é mais rara, porque é controlável pelo autor - mas controlar o que ele não escreveu é quase impossível.
Há que se criar uma consciência com respeito a esse comportamento. Mas primeiro é necessário que se entenda esse mistificador da rede. Ele se sente "prestigiado" porque os leitores pensaram que um texto seu fosse do Veríssimo ou outro grande autor . E assim vai alimentando uma espécie de vaidade anônima, que é falsa, porque sabe que o que escreve é medíocre e por isso não se identifica. Ou, ao contrário, cai em auto-engano, sentindo-se à altura do que ele supõe ser o seu alter-ego literário
Aí está um grande desafio aos desenvolvedores de sistemas, aos tecnólogos da informação e a todos os bem intencionados.
Quando por enquanto nada se pode fazer, sugiro o seguinte: que não se repassem textos que não venham com a fonte , isto é, a identificação de onde foi publicado. É um começo.
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