J K Rowling aproveitou muito bem os sinais dos tempos: frenéticos, urgentes e mutantes. Não foi só por intermédio da mídia que ela se tornou uma autora best-seller. Seus livros têm celeridade, tem surpresas e muito colorido, seguindo a tendência do cinema, que aproveitou seus textos sem muito esforço, já que a série do Harry Potter é ela mesma cinematográfica. É claro que o perigo mora aí: ao se habituarem ao ritmo da história, os menores leitores não conseguirem usufruir de uma escrita reflexiva, mais elaborada, mais intimista, ficando reféns do ritmo da narrativa. Mas não vamos desanimar. Vamos pensar que esse seja um abrir caminhos , que desses grossos volumes possam sair leitores mais aplicados e prontos para diversificar sua cesta de leitura.
Um outro e concomitante traço de época é o comprimento da onda midiática. Os menores, de sete a oito anos, mesmo sem habilitação suficiente para saborearem Harry Potter, solicitam o empréstimo do livro que usam apenas como troféu, fetiche tipo "eu também leio Harry Potter," sem, no entanto, terem-no feito. Isso já é um componente similar à cultura livresca que fez com que muitos adultos carregassem ou James Joyce, ou Thomas Mann(1), tantos outros, debaixo do sovaco, para exibirem um status de culto ou "antenado" com seu tempo. Jean-Pierre Bayard em Como falar dos livros que não lemos diz que não leu, mas conhece Joyce de resenhas e de comentários . E assim se reproduz o fato de que os pequeninos não querem ficar "por fora da onda", espécie de " terceira onda" (2) de propagação de uma obra. O que fazemos com isso? Em princípio, nada. Fingimos que não sabemos que o menino não leu, porque em poucos dias o livro é devolvido, sem se lembrarem de desmarcar as primeiras páginas percorridas, o que é um avanço, ao menos a tentativa foi feita. Depois disto, alguns voltam a seus pequenos volumes ilustrados e de pouco texto. Outros, em menor número, dão saltos quantitativos, pulam para o juvenil e até querem literatura adulta. Outro dia me surpreendi com uma aluna do Ensino Médio solicitando O crime do Padre Amaro do Eça de Queiroz, mas por alívio constatei que foi a pedido do professor, embora a inquietação de ver uma jovem aos 16 anos encarando tal leitura fosse grande, não pelo tema em si - o romance de um padre com uma mulher - mas por tratar-se de um escritor que deveria ser recomendado para quem já entrou na rota do desencanto.
Enfim, o que esse professor saberia dessa aluna, das qualidades e necessidades da "psicologia de leitor"?
Que estão mais objetivos?
Mais céticos?
Mais realistas?
Menos pacientes?
Menos ou mais influenciáveis?
Evidente que a psicologia do leitor reflete o comportamento de época. E há muito ainda a se explorar nessa área.
NOTAS
(1) Ulysses e A montanha mágica respectivamente
(2) Título de livro e expressão cunhados por Alvin Toffler a respeito da sociedade da informação
Ironias à parte, o que se deve levar em consideração é que até os quatro, cinco anos, o livro é na verdade um objeto de manipulação e de apelo visual preponderantes. Às vezes, para alguns pequenos, os livros têm asas, servem para isolar em cima do primeiro desafeto, ou jogá-los ao chão. Os muito pequenos os levam à boca. Os editores criam livros de capa resistente, com elementos de brinquedo, coloridos, com objetos e materiais macios, “bons de apertar”, e alguns sonoros. É claro que as crianças gostam, mas tal coisa não só não são livros, como tampouco farão deles “futuros leitores”, como no discurso corrente.
Sou dos que acreditam que o conceito do livro se forma quando, pela primeira vez, o pequenino, com os olhinhos brilhando, vê um adulto falando e, de vez em quando, olhando para o objeto e alternadamente para ele, como se aquele livro conduzisse sua fala e suas emoções, a cada passagem triste, ou engraçada. Aí sim é onde se abre o mistério e encantamento , de onde saem, como mágica, as emoções, como uma caixa de Pandora.
Mais tarde, mas não muito, começam-se a se formar os heróis e os mitos das centenas de histórias que atravessaram séculos e continuam a encantar em mil versões: os contos de fadas. Mais adiante, ainda as histórias de ação, que hoje, torçam ou não os narizes os críticos, são magistalmente conduzidas pelos estúdios de cinema. Bem, alguns escritores nem enxergam isso. Escrevem histórias com diálogos longos e enfadonhos ou histórias , que sob influência das novelas, tem “barrigas”. Chatíssimos! Mas não são as novelas, mas o cinema que atrai os pequenos para narrativas céleres e cheias de reviravoltas. Quem sacou muito bem isso foi J.K.Rowlings com seus alentados e empolgantes Harry Potter.
Esses leitores de fruição que procuram bibliotecas certamente estão entre aquela camada que não tem meios de adquirir livros, e têm algum tempo para freqüentá-las, o que reduz este universo mais ainda. Dito isto, a possibilidade de uma biblioteca ser um órgão difusor “de massa” é mínima. Daí temos que, no conjunto, esperar que se vá contar com um número sempre reduzido de demanda de leitores em relação à oferta de de obras.
Uma estratégia que se tem usado é instalarem-se bibliotecas em lugares de alta circulação, como metrô, e nos bairros, uma estratégia salutar, mas que não mexe muito nos índices de fruição entre o livro e outras mídias, pois pessoas que “poderiam estar lendo” estão no computador, vendo tv e dvds. E a tentativa de mudar este quadro é inócua.
Deve-se, por isso, simplesmente desistir?
Nunca! A biblioteca jamais perderá o papel de memória de uma cultura. Mas de que vale esse papel, se o livro está apenas disponível, porém intocado? Bem pouco, no entanto o registro de sua existência pode, a qualquer momento, acionar o seu uso. Assim é imprescindível que eles estejam fisicamente dispostos em algum lugar para tornar possível o seu acesso e a informação sobre eles em algum meio. Isso é elementar em biblioteconomia. Hoje há a biblioteca virtual e o acesso via Internet , mas não só nem tudo está disposto na Internet, há problemas como portabilidade e inclusão digital.
Deste ponto de vista, contrariando os prognósticos que já se tornam comuns , não será em pouco tempo – podemos arriscar séculos- que a biblioteconomia desaparecerá. Certamente, o pressuposto está certo quanto à relação cada vez mais diminuta leitores /obras .
Se a biblioteconomia não vai desaparecer, no entanto as funções intrínsecas devem ser alteradas. O bibliotecário terá, como já existem, à sua disposição sistemas em que migrem dados, já nos formatos-padrão, que “hospedem” seu banco de dados. Ele deve apenas adaptar esses dados à sua realidade local, como notações mais simplificadas e ordenamentos mais flexíveis da coleção.
A grande vantagem desses novos desafios é que o novo profissional deverá ficar mais livre para repensar as estratégias de ganhar e manter leitores. Desse modo, ele será um caçador de leitores e, para isso, deverá reunir qualidades pessoais de encantador, técnicas de marketing, cultura geral e de comunicação.
Esse futuro está muito perto mas, ao contrário da velocidade que a época exige, o que é peciso ter em mente é que tudo que cerca o livro é algo para se ter Sem Pressa e Sempre !
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