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Sábado, 21 de Junho de 2008
DESESCOLARIZAR A LEITURA: FINAL

Falávamos de desescolarizar a leitura como uma proposta de liberar o livro de um estigma. O de que leitura é domínio da área de formação educacional e não recurso para a vida toda do indivíduo. O livro na e para a  educação é parte da cultura e não o livro na e  para  a cultura é parte da educação.

Hoje, a agravar esse quadro restritivo da leitura, o livro vem perdendo para outras formas que privilegiam o imagético e a mensagem curta, e ninguém pode apostar mais na expressão na sua forma tradicional, oral e escrita. Apesar de concordar com Humberto Eco que nada supera  a portabilidade do livro, o acesso à informação por mídia digital cada vez mais reduz o campo da mídia em papel, que hoje necessariamente se obriga a uma versão online, como acontece hoje com os principais jornais no mundo. (1)

Dirão alguns: há texto na Internet; sem dúvida, porém, pelas características dessa mídia, algumas mudanças são visíveis quanto ao modo de ler: a verticalidade, que evoca um predomínio da parte pelo todo, uma vez que o livro, ao contrário da leitura na tela, apresenta-se mais como o todo pela parte, através do ato de folhear de frente para trás e vice-versa; outra:  a necessidade de que se escreva de forma sucinta e direta no computador, o que faz com que essa exigência influencie textos em papel; na tendência  da editoração na forma de apresentação gráfica mais leve, corpo de letra maiores, fora o fato notável de que as referências em um determinado texto estão imediatamente  acessíveis, pelo hipertexto, essa sim uma  facilidade  com largas vantagens em relação à tradicional.

Por outro lado, a confiabilidade e autoridade de textos na Internet  deixam a desejar. Com os prós e os contras, essa é uma realidade textual com que nos defrontamos e sobre a qual deve-se estabelecer um debate entre seus diferentes atores.

Pesquisas mais recentes divulgadas mostram que há no Brasil um crescimento do uso do livro, de uma meia de 1, 8 livros/ano para 3,7 livros ano por habitante, mas não se divulga sob que bases  são feitos esses estudos. Se sob influência da escolarização, se sob influência de mercado, com a mídia agregada, se sob influência das políticas públicas que,eventualmente, podem fazer desses resultados uma conclusão ilusória.

Fato é que o que se vê é o seguinte quadro: mal o educando aprende as primeiras letras, forma as primeiras frases, e lê os primeiros livrinhos, defronta-se com facilidades que nunca terá, se apenas contar com o suporte em papel, daí tendendo desde cedo a dispensá-lo, assim que se ver livre da obrigatoriedade de ler.

Não que se possa dispensar   o computador, essa realidade não tem volta, mas o impasse criado faz recrudescer as forças impositivas e, logo, restritivas da leitura, porque são forças que defendem a “facção do livro” mas que, ao mesmo tempo, não podem vetar ou obstaculizar as tecnologias da informação, indissociáveis da vida moderna.

Não há repostas prontas, mas há dúvidas cada vez mais numerosas e instigantes a clamar que os envolvidos se debrucem sobre elas e, certamente, o reforço à escolarização da leitura significa um retrocesso ao tempo em que  se lia apenas nas bibliotecas dos mosteiros e nas rodas aristocráticas.

 

 (1) Ler a esse respeito Beckett.SuperMedia: save the jornalism so it can save the world (William-Bleckwell) e Sant´Anna. O destno do jornal (Record) ambos recém-lançados.



postado por Sheila G Soares às 18:04
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Domingo, 8 de Junho de 2008
Desescolarizar a leitura (2)

A intertextualidade aplicada ao aprendizado tem a função de agregar competências. Uma das dificuldades de agregar competência está no fato de que o suporte único que os alunos têm acesso na escola – o livro didático – compromete as de manusear, tocar e identificar não só diferentes suportes de informação: livros, revistas, jornais, como os diferentes gêneros, uma vez que esse livro pretende  fazer  a mediação entre os leitores e outros tipos de documentos, substituindo-os.  Há profissionais que ressaltam o fato do aluno ter, em toda a sua vida escolar, acesso somente ao livro didático, o que é de se lamentar. Não se entra aqui no mérito da qualidade desses livros, há muitos que são bons; o que se discute é a internalização do conceito de livro como propriedade da vida escolar. Quando ouço as pessoas, tanto profissionais como leigas falarem em “paradidáticos” me pergunto se isso não dissemina um conceito difuso de livro em todas as suas particularidades: livro literário, informativo, científico e técnico, livro prático etc.. Isso equivale a dizer que se induz a pensar “livro” como se fossem de duas categorias: didático e não didático, num reducionismo tipo “existem os livros para ensino e os demais” – paradidáticos ou vulgarmente conhecidos como “extra-classe”. Como se as pessoas não carregassem o livro para suas vidas. Ou como se a única referência à leitura se resumisse à escola. Sabemos que, em diferentes momentos históricos, diferentes instituições se fizeram agentes da leitura: as aristocracias, a igreja e depois a escola.   Mas, desde a descoberta da imprensa, o conhecimento se pulveriza e se dissemina no seio da sociedade, e mais ainda, a partir da Revolução industrial quando um mercado de leitores foi necessário não só para qualificação para o consumo , como para mão de obra para indústria. Sabemos que a qualificação para formação profissional  se deu  em proporção muito superior à para o mercado e, particularmente, o mercado editorial. Ou seja, há mais leitores para uso do livro de instrução do que o consumidor voluntário e autônomo do livro, de qualquer livro. O mercado editorial então juntou seus esforços no processo educativo, e, particularmente no Brasil, o fez de maneira que o livro dito “paradidático” vem carregado de bulas de uso: roteiros de leitura, exercícios, suplementos, enfim uma parafernália no sentido de mediar a falta de hábito desse jovem em manusear, conhecer e reconhecer, e diferenciar formatos e suportes de informação, e dando a conotação de que todo livro serve a fins escolares.

                                                                                                                             (continua)

 



postado por Sheila G Soares às 21:01
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