Continuação...
Na organização do acervo, com respeito à propriedade da acessibilidade da coleção de biblioteca comunitária, visamos a dispor a coleção fisicamente o mais próximo possível do leitor, e partindo do ponto de vista que ele não é genericamente um especialista, mas um explorador da coleção e que, para tanto o princípio do “bom vizinho” é fundamental para atraí-lo. Não só um bom vizinho, mas um guia que o leve a perceber que as áreas do conhecimento se interpenetram. Por este princípio, ao buscar determinado tema ou mesmo título, o leitor encontrará outros de seu interesse e os temas afins. Assim, o Grupo temático visa reunir assuntos que se relacionam, mesmo que sejam de classes diferentes.
A tabela se utiliza dos números da CDD* da forma mais abreviada possível, utilizando, no máximo três (3) dígitos e uma letra em maiúsculo para subdivisão, na literatura já com as subdivisões de gênero incluídos, para facilidade dos leitores e colaboradores leigos que utilizarão tanto os catálogos quanto o acesso direto à coleção.
Assim, por exemplo, poesia portuguesa e brasileira pertence ao Grupo 8 869 P. Obra de humor brasileira, G8 869 H etc.
Procuramos agrupar os livros em Referência, mais 9 grandes grupos.
Tal organização procura reunir alguns elos entre os tipos de conhecimento rompidos pela hierarquia "disciplinar" da CDD. Acreditamos que tal forma permite, por outro lado, uma relação mais flexível do leitor com a coleção. Diferentes áreas poderão conviver lado a lado como a G1, que agrega Filosofia (100) e parte das Ciências Biológicas (570) e,ao mesmo tempo, permite ao consulente uma visão quase seqüencial da experiência humana. Outros grupos são mais fechados na mesma "classe" como crenças dogmas, com notação 200 a 299.
No conjunto, é como se a biblioteca tivesse um discurso e uma narrativa da história do conhecimento. Assim, o topográfico acompanha essa narrativa ao dizer, através principalmente da obra impressa, como surge o homem, em que ele crê, qual ambiente em que se criou, do habitat natural à sociedade, como se comunicou e transmitiu cultura, como descobriu, aplicou e inventou conhecimentos científicos, como criou e usufruiu da arte, como registrou seu imaginário e sua memória, e como vive o seu cotidiano.
Certamente profissionais acostumados à organização "por classes" irão estranhar e alguns até rejeitar esse arranjo topográfico, mas nossa intenção aqui é convidá-los ao debate que é aberto a críticas e sugestões. Não se “reinventa a roda”, já que as notações tradicionais são preservadas na sua forma essencial, porém submete-se-as a determinados contextos, que denominamos grupos temáticos.
Muitas melhorias provavelmente irão se agregar a esta, mas com toda a certeza serão sempre a favor do usuário. E de resto, como toda proposta experimental, há que se fazer o registro das dificuldades ou facilidades necessárias ao seu aperfeiçoamento.
* Classificação Decimal de Dewey
Edson Nery da Fonseca, em seu manifesto Ser ou Não ser bibliotecário, gritou:
Ser bibliotecário para simplificar a catalogação!
Não ser bibliotecário para usar pelo resto da vida o código da Vaticana!
Ser bibliotecário para estar a serviço dos que estudam! Não ser bibliotecário para ficar escravizado a fichas e códigos de catalogação!
Ser bibliotecário para usar os sistemas novos de recuperação da informação! Não ser bibliotecário para continuar usando o sistema decimal de Melvil Dewey!
Gritou contra outras coisas caquéticas da biblioteconomia, mas vou me prender apenas nos pontos acima.
Não é preciso explicar que esse manifesto é inspirado em Shakespeare. Hamlet, para ser exato. O Ser é o oposto do Não ser.
Um não pode conviver com o outro. O Ser não admite e não aceita o Não ser, e vice-versa. É este o conflito que o Edson quer passar nesse texto. Também não preciso explicar quem é o Edson Nery da Fonseca(e nem por quê sou fã dele).
Ser bibliotecário para simplificar a catalogação. Torná-la inteligível para os não iniciados na biblioteconomia.
Fazê-la capaz de acompanhar a velocidade das informações e da necessidade social por elas. E o que foi colocado como o inverso disso? O código da Vaticana.
Que foi criado para catalogar obras raras – como é sabido, uma obra rara deve ser catalogada, realmente, nos mínimos detalhes, pois são eles que vão definir a raridade e o valor da obra.
Mas só elas. Então como se explica usar este código até hoje, travestido de AACR2, e catalogando número de páginas, se inclui bibliografia ou não, quantos centímetros tem um livro? Perdendo tempo, na verdade, com informações que pouco ou nada interessam ao leitor, ao usuário?
Ser bibliotecário para estar ao lado dos que estudam. Há algum servir mais nobre para nossa profissão? E qual é o avesso disso?
Ficar escravizado a fichas e códigos de catalogação. É o efeito biblioteconomizante que afeta a mente dos bibliotecários há tempos, que diz que a biblioteca existe para eles, não para os usuários.
Por que perder tempo atendendo um leitor ávido por resposta no serviço de referência, se se pode estar atrás de um bureau catalogando fichas que, supostamente, vão “auxiliar” os usuários?
Ser bibliotecário para usar os sistemas novos de recuperação da informação.
Ora, dizer sistemas novos de recuperação da informação é automaticamente chamar os anteriores de velhos, ultrapassados, antiquados.
Principalmente o sistema decimal de Dewey, que é a negação de sistemas novos de recuperação da informação.
A questão não é utilizar esses códigos bem, a questão é não utilizá-los mais. Eles não são parâmetros, não são normas de conduta como os bibliotecários são ensinados a obedecer e a utilizar.
Eles não agregam valor nenhum à informação, no máximo agregam ou sintetizam ou organizam informações.
Valor é o usuário, e apenas ele, que dá ou não. Dizer que esses códigos agregam valor à informação é o cúmulo do efeito biblioteconomizante explicado mais acima.
Faltou dizer um detalhe, que guardei para o final com a intenção de chocar: Edson Nery escreveu tudo isso em 1966. Há quase quarenta anos. No entanto, parece ser um futuro que os bibliotecários não querem aceitar. Ou serão incapazes de entender?
Última Atualização: ( 18 11 2004 )
Fechar Janela
(1) Aby Warburg criou um sistema assim para consulentes de sua biblioteca. Ver Manguel. Biblioteca à noite . São Paulo: Cia das Letras, 2006
O Globo / Data: 19/1/2008
Desconhecidos, folheados ou esquecidos...
Mais do que uma defesa sobre a liberdade, o livro de Bayard é um ensaio extremamente bem fundamentado sobre todo o processo de leitura — ou, como o autor prefere, o processo intermediário que existe entre a leitura e a não-leitura. Parece confuso, mas no texto do professor francês tudo fica extremamente agradável e simples. A partir de obras de outros escritores, ele disseca as situações pelas quais passa um leitor, de diversas origens e formações. Através de um obituário escrito pelo poeta e filósofo francês Paul Valéry na morte de Marcel Proust, por exemplo, Bayard explica que é possível falar sobre a obra de alguém mesmo sem tê-la lido por completo. Em outro momento, ele trata do enredo de "O nome da rosa”, de Umberto Eco, no qual o monge Guilherme de Baskerville investiga assassinatos cometidos num monastério. As mortes envolvem um dos volumes da “Poética”, de Aristóteles, obra no qual ele faz uma análise do riso. O detalhe que interessa a Bayard é que Baskerville deduz os crimes sem nunca ter lido a obra de Aristóteles. — Mesmo alguns livros que não lemos fazem parte de nossas vidas. São os livros sobre os quais nós ouvimos falar. Eu não devo ser capaz de dizer exatamente o que eu li sobre Hegel, Kant, Freud ou Proust. É claro que eu li muita coisas desses autores, mas é que eu também li muitos livros que falam sobre esses autores. É difícil diferenciar uma coisa da outra. É estreito o limite entre ler e não ler. Quantas pessoas podem dizer que leram da primeira linha até a última linha, da capa até a contracapa, a “Bíblia”? — questiona Bayard.
Já no capítulo “Situações de discurso diante de um professor”, o professor francês analisa o estudo da antropóloga americana Laura Bohannan com os tiv, um grupo étnico da África Ocidental. Nele, Laura relata a experiência que teve ao, oralmente, contar a alguns deles a história de “Hamlet”, de Shakespeare. O resultado foi que os tiv questionaram várias passagens do livro, por não entenderem, por exemplo, o significado de um fantasma ou não acharem estranho que a viúva Gertrudes se casasse pouquíssimo tempo depois da morte do marido.
Bayard desenvolve, então, um conceito que ele chama de “livro interior”, uma espécie de filtro que varia de cultura para cultura e que determinaria a recepção de novos textos por parte do leitor. — Eu acho que alguns livros importantes não o são para mim ou para você. Isso não significa que é para se sentir culpado caso você não se saia bem lendo alguma coisa. Eu digo para os meus estudantes que eu não fui bem sucedido em ler “Ulisses”, do Joyce. Talvez não fosse o livro para mim. E não me sinto culpado em não ter lido “Ulisses” e explicar do que ele se trata — diz.
Sobre os livros lidos e esquecidos, Bayard cita o ensaísta francês do século XVI Michel de Montaigne. Em seus “Ensaios”, Montaigne diz que, depois de ler um livro, detalhes “pequenos” como o autor e as palavras eram esquecidos prontamente. Até mesmo seus próprios escritos se perderiam na memória com o passar dos anos.
Bayard afirma que Montaigne teria conseguido apagar qualquer limite entre leitura e não-leitura. O autor diz que a “confissão” do ensaísta nada mais é do que um resumo da relação que todas as pessoas têm com os livros. “Não guardamos em nossa memórias livros homogêneos, mas fragmentos arrancados de leituras parciais”, escreve ele. — Existe uma situação intermediária entre apenas ler ou não-ler um livro. Os intelectuais conhecem bem essa situação porque estão acostumados a folhear os livros, a começar uma leitura e não terminá-la. Mas muitas pessoas não entendem isso — afirma Bayard. — Quando alguém vai ao meu apartamento, vê aquela quantidade imensa de livros e pergunta se eu li todos, eu francamente digo que não. A questão é que eu vivo com os meus livros, eles são minhas companhias, meus amigos. Quando eu tenho problemas, eu peço a eles a solução, mas não leio todos.
Dessa biblioteca, o professor francês tem dois volumes que podem resumir bem o espírito de liberdade pregado em "Como falar dos livros que não lemos?" (208 páginas). Um é a resposta dele à pergunta “qual o melhor livro que você não leu?”. Já o outro é uma confissão sobre um autor brasileiro.
— “Ulisses” é o livro que não li e mais gostei. Eu tenho certeza que é um ótimo livro. Há muitas garotas que são interessantes, mas que podem não ser para mim e podem ser para você. A lógica é a mesma — brinca o simpático Bayard. — Dos autores brasileiros, eu adoro Machado de Assis. O “Dom Casmurro” eu realmente li. E até o reli. Reler é também uma ótima forma de ler um livro. É importante ser um leitor criativo.
André Miranda
Existe entre nós, muito utilizado, mas que vem perdendo prestígio por falta de propaganda dirigida, e comentários cultos, embora seja superior a qualquer outro meio de divulgação, educação e divertimento, um revolucionário conceito de tecnologia de informação.
Chama-se de Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas – L.I.V.R.O.
L.I.V.R.O. que, em sua forma atual, vem sendo utilizado há mais de quinhentos anos, representa um avanço fantástico na tecnologia. Não tem fios, circuitos elétricos, nem pilhas. Não necessita ser conectado a nada, ligado a coisa alguma. É tão fácil de usar que qualquer criança pode operá-lo. Basta abri-lo!
Cada L.I.V.R.O. é formado por uma seqüência de folhas numeradas, feitas de papel (atualmente reciclável), que podem armazenar milhares, e até milhões, de informações. As páginas são unidas por um sistema chamado lombada, que as mantém permanentemente em seqüência correta. Com recurso do TPO – Tecnologia do Papel Opaco – os fabricantes de L.I.V.R.O.S podem usar as duas faces (páginas) da folha de papel. Isso possibilita duplicar a quantidade de dados inseridos e reduzir os custos à metade!
Especialistas dividem-se quanto aos projetos de expansão da inserção de dados em cada unidade. É que, para fazer L.I.V.R.O.S com mais informações, basta usar mais folhas. Isso porém os torna mais grossos e mais difíceis de ser transportados, atraindo críticas dos adeptos da portabilidade do sistema, visivelmente influenciados pela nanoestupidez.
Cada página do L.I.V.R.O. deve ser escaneada opticamente, e as informações transferidas diretamente para a CPU do usuário, no próprio cérebro, sem qualquer formatação especial. Lembramos apenas que, quanto maior e mais complexa a informação a ser absorvida, maior deverá ser a capacidade de processamento do usuário.
Vantagem imbatível do aparelho é que, quando em uso, um simples movimento de dedo permite acesso instantâneo à próxima página. E a leitura do L.I.V.R.O. pode ser retomada a qualquer momento, bastando abri-lo. Nunca apresenta " ERRO FATAL DE SENHA", nem precisa ser reinicializado. Só fica estragado ou até mesmo inutilizável quando atingido por líquido. Caso caia no mar, por exemplo. Acontecimento raríssimo, que só acontece em caso de naufrágio.
O comando adicional moderno chamado ÍNDICE REMISSIVO, muito ajudado em sua confecção pelos computadores (L.I.V.R.O. se utiliza de toda tecnologia adicional), permite acessar qualquer página instantaneamente e avançar ou retroceder na busca com muita facilidade. A maioria dos modelos à venda já vem com esse FOFO (softer) instalado.
Um acessório opcional, o marcador de páginas, permite também que você acesse o L.I.V.R.O. exatamente no local em que o deixou na última utilização, mesmo que ele esteja fechado. A compatibilidade dos marcadores de página é total, permitindo que funcionem em qualquer modelo ou tipo de L.I.V.R.O. sem necessidade de configuração. Todo L.I.V.R.O. suporta o uso simultâneo de vários marcadores de página, caso o usuário deseje manter selecionados múltiplos trechos ao mesmo tempo. A capacidade máxima para uso de marcadores coincide com a metade do número de páginas do L.I.V.R.O.
Pode-se ainda personalizar o conteúdo do L.I.V.R.O., por meio de anotações em suas margens. Para isso, deve-se utilizar um periférico de Linguagem Apagável Portátil de Intercomunicação Simplificada – L.A.P.I.S.
Elegante, durável e barato, L.I.V.R.O. vem sendo apontado como o instrumento de entretenimento e cultura do futuro, como já foi de todo o passado ocidental. São milhões de títulos e formas que anualmente programadores (editores) põem à disposição do público utilizando essa plataforma.
E, uma característica de suprema importância: L.I.V.R.O. não enguiça!
Autores
Blogs e sites de leitura
Biblioteconomia
Biblioteconomia e ciência da informação
Imprensa
Projetos
Sociedade da Informação