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Terça-feira, 29 de Janeiro de 2008
Classificando segundo grupos temáticos II

Continuação...

 

 

Na organização do acervo, com respeito à propriedade da acessibilidade da coleção de biblioteca comunitária, visamos a dispor a coleção fisicamente o mais próximo possível do leitor, e partindo do ponto de vista que ele não é genericamente um especialista, mas um explorador da coleção e que, para tanto o princípio do “bom vizinho” é fundamental para atraí-lo. Não só um bom vizinho, mas um guia que o leve a perceber que as áreas do conhecimento se interpenetram. Por este princípio, ao buscar determinado tema ou mesmo título, o leitor encontrará outros de seu interesse e os temas afins. Assim, o Grupo temático visa reunir assuntos que se relacionam, mesmo que sejam de classes diferentes.

 A tabela se utiliza dos números da CDD* da forma mais abreviada possível, utilizando, no máximo três (3) dígitos e uma letra em maiúsculo para subdivisão, na literatura já com as subdivisões  de gênero incluídos, para facilidade dos  leitores e colaboradores leigos que utilizarão tanto os catálogos quanto o acesso direto à coleção.

Assim, por exemplo, poesia portuguesa e brasileira pertence ao Grupo 8  869 P. Obra de humor brasileira, G8 869 H etc.

Procuramos agrupar os livros em Referência, mais  9 grandes grupos.

Tal  organização procura reunir alguns elos entre os tipos de conhecimento rompidos pela hierarquia "disciplinar" da CDD. Acreditamos que tal forma permite, por outro lado, uma relação mais flexível do leitor com a coleção. Diferentes áreas poderão conviver lado a lado como a G1, que agrega Filosofia (100) e parte das Ciências Biológicas (570) e,ao mesmo tempo, permite ao consulente uma visão quase seqüencial da experiência humana. Outros grupos são mais fechados na mesma "classe" como crenças dogmas, com notação 200 a 299. 

No conjunto, é como se a biblioteca tivesse um discurso e uma narrativa da história do conhecimento. Assim, o topográfico acompanha essa narrativa ao dizer, através principalmente da obra impressa, como surge o homem, em que ele crê, qual ambiente em que se criou, do habitat natural à sociedade, como se comunicou e transmitiu cultura, como descobriu, aplicou e inventou conhecimentos científicos, como criou e usufruiu da arte, como registrou seu imaginário e sua memória, e como vive o seu cotidiano.

Certamente profissionais acostumados à organização "por classes" irão  estranhar e alguns até rejeitar esse arranjo topográfico, mas nossa intenção aqui é convidá-los ao debate que é aberto a críticas e sugestões. Não se “reinventa a roda”, já que as notações tradicionais são preservadas na sua forma essencial, porém submete-se-as a determinados contextos, que denominamos grupos temáticos.

Muitas melhorias provavelmente irão se agregar a esta, mas com toda a certeza serão sempre a favor do usuário. E de resto, como toda proposta experimental, há que se fazer o registro das dificuldades ou facilidades necessárias ao seu aperfeiçoamento.

* Classificação Decimal de Dewey



postado por Sheila G Soares às 22:43
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Domingo, 27 de Janeiro de 2008
Classificando segundo grupos temáticos
Disciplinas são sistematizações do conhecimento, mas o verdadeiro conhecimento não tem limites aprisionados nas fronteiras entre o mundo material e o imaginário. Não podemos escapar de sistematizações, mas elas são um meio, não um fim. Preparamos um leque de questões, sob o qual a nossa biblioteca se organiza e para o qual deve dar respostas. Essas perguntas não nasceram ao vento, mas de velhas especulações da Filosofia, desde Aristóteles. Traduzindo para a nossa prática, de nada adiantam sistemas de conhecimento altamente hierarquizados e complexos, se não se oferecem à apreensão do usuário, daí a preocupação do acervo não se organizar segundo uma hierarquia ou subdivisões decimais, mas através de grupos temáticos, estabelecidos segundo as questões mais essenciais ao indivíduo, cujas respostas requerem um mínimo de reflexão. Esta estrutura torna possível a intervenção simultânea de diferentes ramos do conhecimento:
GRUPO 1
Quem somos, de onde viemos e como somos?
É a coleção de teorias que assinalem as origens cósmicas e materiais do Homem, do ponto de vista filosófico e científico. Da criação do Universo à Anatomia e Fisiologia humana.
GRUPO 2
Qual a origem espiritual do homem?
Busca respostas para além do estado físico (metafísico) da existência humana: a espiritualidade, crenças, dogmas e religião.
GRUPO 3
Onde e como vivemos?
Matérias que tratam do o homem sua relação com meio ambiente físico ; e com o meio ambiente social: a vida social , a cultura e os lugares.
GRUPO 4
Como nos relacionamos?
Matérias que tratam de comunicação e línguas
e
Como nos preparar para o Futuro?
Matérias diversas que visam à instrução
Grupos 5 e 6
Como entender e aplicar conhecimentos sobre a natureza?
Matérias de Ciência e Tecnologia
GRUPO 7
Como entender e apreciar a Arte?
Matérias sobre artes plásticas e Artes do espetáculo
GRUPO 8
Quem e como são nossos heróis personagens e fantasias?
Literatura narrativa ficcional e jornalística e os gêneros literários
GRUPO 9
Como preservar a memória do homem para deixar às gerações do futuro?
História, Biografia e geografia histórica
GRUPO 10
De que informações precisamos no dia a dia?
Auto-ajuda, espiritualidade, saúde, cidadania, cuidados pessoais, felicidade.
 
A coleção de Referência não está descrita nesta lista, é uma coleção em separado.
 
 
                           Continua...          


postado por Sheila G Soares às 14:49
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Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2008
Ser bibliotecário de Gustavo Henn 15/11/2004

 

Edson Nery da Fonseca, em seu manifesto Ser ou Não ser bibliotecário, gritou:

Ser bibliotecário para simplificar a catalogação!
Não ser bibliotecário para usar pelo resto da vida o código da Vaticana!

Ser bibliotecário para estar a serviço dos que estudam! Não ser bibliotecário para ficar escravizado a fichas e códigos de catalogação!

Ser bibliotecário para usar os sistemas novos de recuperação da informação! Não ser bibliotecário para continuar usando o sistema decimal de Melvil Dewey!

 Gritou contra outras coisas caquéticas da biblioteconomia, mas vou me prender apenas nos pontos acima.

Não é preciso explicar que esse manifesto é inspirado em Shakespeare. Hamlet, para ser exato. O Ser é o oposto do Não ser.

Um não pode conviver com o outro. O Ser não admite e não aceita o Não ser, e vice-versa. É este o conflito que o Edson quer passar nesse texto. Também não preciso explicar quem é o Edson Nery da Fonseca(e nem por quê sou fã dele).

Ser bibliotecário para simplificar a catalogação. Torná-la inteligível para os não iniciados na biblioteconomia.

Fazê-la capaz de acompanhar a velocidade das informações e da necessidade social por elas. E o que foi colocado como o inverso disso? O código da Vaticana.

Que foi criado para catalogar obras raras – como é sabido, uma obra rara deve ser catalogada, realmente, nos mínimos detalhes, pois são eles que vão definir a raridade e o valor da obra.

Mas só elas. Então como se explica usar este código até hoje, travestido de AACR2, e catalogando número de páginas, se inclui bibliografia ou não, quantos centímetros tem um livro? Perdendo tempo, na verdade, com informações que pouco ou nada interessam ao leitor, ao usuário?

Ser bibliotecário para estar ao lado dos que estudam. Há algum servir mais nobre para nossa profissão? E qual é o avesso disso?

Ficar escravizado a fichas e códigos de catalogação. É o efeito biblioteconomizante que afeta a mente dos bibliotecários há tempos, que diz que a biblioteca existe para eles, não para os usuários.

Por que perder tempo atendendo um leitor ávido por resposta no serviço de referência, se se pode estar atrás de um bureau catalogando fichas que, supostamente, vão “auxiliar” os usuários?

Ser bibliotecário para usar os sistemas novos de recuperação da informação.

Ora, dizer sistemas novos de recuperação da informação é automaticamente chamar os anteriores de velhos, ultrapassados, antiquados.

Principalmente o sistema decimal de Dewey, que é a negação de sistemas novos de recuperação da informação.

A questão não é utilizar esses códigos bem, a questão é não utilizá-los mais. Eles não são parâmetros, não são normas de conduta como os bibliotecários são ensinados a obedecer e a utilizar.

Eles não agregam valor nenhum à informação, no máximo agregam ou sintetizam ou organizam informações.

Valor é o usuário, e apenas ele, que dá ou não. Dizer que esses códigos agregam valor à informação é o cúmulo do efeito biblioteconomizante explicado mais acima.

Faltou dizer um detalhe, que guardei para o final com a intenção de chocar: Edson Nery escreveu tudo isso em 1966. Há quase quarenta anos. No entanto, parece ser um futuro que os bibliotecários não querem aceitar. Ou serão incapazes de entender?

Última Atualização: ( 18 11 2004 )

Fechar Janela

 

 

 



postado por Sheila G Soares às 15:29
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Aprendizado e prazer na leitura
                                                                 
Se dependesse de discussão , as mazelas da leitura e escrita entre nossos jovens estariam resolvidas. Essa é mais uma daquelas questões - junto com a má distribuição da renda, violência e miséria - da qual se diz com ar impotente: “A curto prazo...”. E tudo permanece como está. Coleciono matérias e matérias sobre isso e já se tornaram cantilenas. Discute-se, publica-se à vera, mas tomando de minha deusa Dramaturgia mais uma lição, é preciso ação. O “fiat lux!” Está bem. O governo distribuiu mais de 70 milhões de exemplares - infanto-juvenis, e não didáticos, graças a Deus, - só no Projeto Tempo de Leitura[1]. Já é alguma coisa (ou talvez muita, do ponto de vista do contribuinte) e eu, como o resto dos palpiteiros apaixonados, tenho minhas hipóteses - ou minhas crenças, por que não?- e, talvez, saídas para o problema. Mas, com licença, tudo à base das práticas e do cotidiano, e se alguém os despreza, pode parar por aqui. Minha ferramenta  são olhos e ouvidos ligados e, claro,...muita leitura! Antes de tudo, é preciso dizer que há uma grande confusão em torno de aprendizado da leitura e prazer da leitura. O aprendizado, e nesse caso trata-se da escola, requer atos repetitivos, tentativa e erro, memorização, tensão, avaliação, disciplina, enfim, tudo que a criança (e nós também) detesta, e, reconheçamos, com certa razão, dado que escola não é nenhum parquinho de diversões e ela vive numa sociedade cujo valor máximo é o prazer. Agrava esse quadro o fato da instrução escolar ser massificada. Isso quer dizer que, por exemplo, um programa de ensino, em algum momento, estabelece que o aluno deva ler um livro a cada bimestre, mas ocorre que o tal livro é o mesmo título por turma. Isso pode ser muito bom para o bolso dos autores, dos editores, livreiros e cômodo para professores, mas e para os meninos? Considerando que cada aluno seja único como pessoa, com suas diferenças e dificuldades individuais de experiências com a leitura-  e aí entra gosto,entra a história familiar, a personalidade - e que o gosto pela leitura tem um componente afetivo, é algo pessoal e intransferível, não se ensina, no máximo, desperta-se - o que resulta dessa prática impositiva é que o aluno continua não lendo por sua conta e, logo que puder, abandonará o livro de vez. Será então a   sala de aula o melhor lugar para o estímulo à leitura ? Diz Daniel Pennac, escritor e professor francês, que para se cultivar o prazer de ler deve-se tirar o livro (literário) do armário da Educação. Dado que o processo de domínio da leitura é árduo e importante como facilitador, mas não indutor do gosto pela leitura e que, muitas vezes, temos que interpretar o “não gostar de ler” da criança como dificuldade, urge que no mínimo seja agradável. E variado. Quanto mais agradável e variado melhor. Há inúmeros tipos de textos, aliás muito utilizados por cursos particulares de redação e que a escola despreza , apostando no intocável didático. Que “textos” são esses? Permito-me enumerar. São desde frases bem tiradas, como aforismos, ditos populares a uma foto, uma letra de música, piadas, receitas culinárias, fábulas, esquetes, uma cartilha de trânsito, um manual de funcionamento de alguma coisa, um cordel, uma notícia de jornal, uma propaganda, uma carta, um horóscopo, resenhas de filmes e novelas, jogos e passatempos verbais (charadinhas,trocadilhos,trava-línguas), comics, quadrinhos,charges, todos textos curtos que rendam apenas uma aula, mas tantos que rendam o período letivo (outra regra de Dramaturgia : menos é mais) e , ah sim ! e textos literários, capítulos de livros, contos e poemas, estes escolhidos pelas crianças, não pelo professor, nem pelo governo. E um bom lugar de escolha é a velha e boa Biblioteca. Ôpa! Mas, atenção, com roupagem do século 21! Aí é que ela entra, juntamente com as Salas de Leitura nessa cruzada que chamo “conquista do pequeno leitor”. Uma de minhas crenças é que a Biblioteca ali ao lado,e claro, bem-equipada e disponível, por si só, pode garantir uma razoável afluência de usuários. No entanto, as salas de aula podem prover as bibliotecas das atividades de reforço necessárias à ambientação dos pequenos com a leitura, mas nunca substituí-la. Devem ser ambientes contíguos e próprios a programações com contadores, rodas de leitura, encontros e eventos afins. Alegres sim, por que não? É uma importante aliada em desconstruir o desvio da “missão” de “formar o leitor”, já que como “apoio didático”, a biblioteca escolar tem sido a instituição mais atingida por imposições. Ao contrário do que normalmente acontece, precisa para isto, desfazer-se de certos paradigmas. Além de estar acessível, deve, lançar mão das novidades, usar recursos de comunicação, despir-se de preconceitos e abrir mão de antigos ideais: preocupar-se menos com uma estrutura “científica” e “erudita” e mais com o futuro cidadão e suas necessidades. Como fazê-lo em ambiente escolar? Eu digo que é possível e tenho acompanhado experiências muito positivas, apesar de tudo,relatadas em congressos e trabalhos. Nem é preciso nada tão mirabolante, além de se criarem mais bibliotecas tanto em ambiente escolar como comunitário, incentivarem e atualizarem as já existentes e que se tenha pessoal com espírito novo, engajado e (absolutamente necessário) que ame e transmita amor pelos livros, enfim, que os agentes e mediadores de leitura unam seus esforços mais em torno de princípios e boa vontade do que de métodos.


[1]A MAHLE em parceria com a Fundação Educar DPaschoal e o apoio do Ministério da Educação e Cultura (MEC), lançou uma coleção de livros que é distribuída aos colaboradores e para a comunidade. É o compromisso com a educação, incentivando nossas crianças ao hábito de ler e sensibilizando a comunidade para o exercício da cidadania.


postado por Sheila G Soares às 12:51
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Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008
Organizando a biblioteca segundo o leitor

Relatar uma experiência que compreende, acima de tudo, observações do cotidiano em uma biblioteca sobre abordagens dos leitores, quanto à informação, é apontar os elementos de cultura técnica e do senso comum em conflito e demonstrar o quanto este pode se refletir nos processos informativos de modo a desconstruir categorias fixas e “imutáveis” herdadas da tradição e que não dão conta das necessidades do usuário, porque não respeita seus modos de abordagem, a sua linguagem e não atende a suas necessidades. Trata-se uma nova versão da máxima parafraseando a Constituição: todo poder emana do leitor e em nome dele será exercido.
Em primeiro lugar, sob aspecto organizacional, deve ser admitido como lei essa sim, a única a ser imutável, o acesso direto. A biblioteca deve ser explorada pelas crianças à exaustão. E In-loco! Só assim acontecerão as descobertas. Quantas vezes, percorrendo as estantes, elas não descobrem algo melhor do que o que estão procurando? A função nas bibliotecas escolares e públicas é de promover a familiarização, o contato, a experiência da leitura, sem restrições de acesso.
Tradicionalmente o que temos? Um sistema em que o meio (seu conteúdo impresso ou não) – o catálogo - determina a forma pela qual a informação estará disponibilizada. Assim basta que se apliquem as regras e está tudo resolvido. Invertemos. O leitor é quem vai ditar como a informação será disponibilizada. Antes de “arrumar e catalogar”, vamos observar como o leitor pergunta.Uma biblioteca deve estar preparada para dar respostas, como um oráculo. E as respostas se encontram ao se entender sua estrutura organizacional e sua visão de conjunto, mesmo quando não existam catálogos. Os catálogos, no que se refere a recuperar informação, ao contrário do que se preconiza, devem ser à imagem e semelhança do seu leitor, que não é uma entidade técnica, abstrata ou burocrática. Em minha biblioteca, precisava reunir tudo que tinha sobre Brasil. Ou criava uma categoria “Brasil”(981?) ou os livros ficariam dispersos fisicamente em suas classes política, história, geografia etc,.e o usuário dependeria do catálogo. Insisto que o uso do catálogo é importante, mas que o usuário não deve depender dele e se furtar à experiência prazeirosa e salutar do "bom vizinho"(1). O catálogo não é o espelho do desejo. Não há solução técnica para tal caso. Apenas o bom senso, uma estante e uma legenda: Brasil –de 00 a 900. Contudo, não se pode pura e simplesmente dispensar um conhecimento acumulado, quando ele serve para nortear e não obstaculizar os passos do leitor, como normalmente acontece nas bibliotecas que valorizam a complexidade técnica. A forma como está organizado o acesso por si só pode garantir uma praticidade que permite ao usuário achar a informação com relativa rapidez, mesmo quando esta é específica. É preciso criar uma estrutura partir dessas procuras, e relacioná-las ao todo a que hipoteticamente pertence. Por exemplo, uma procura pelo assunto “vacinas” , por que estará em medicina (610) e não em saúde pública (classe 300?) Saúde compreende não só categorias médicas, mas bem-estar psicológico e modo de vida (classes que estão distantes na tabela de classificação)! Então é preciso estarmos atentos às inúmeras facetas para reunirmos assuntos que aparentemente “deveriam” estar hierarquicamente dispostos como manda a disciplina, mas que na realidade não estão. Mas o que difere essa organização das chamadas tradicionais? Ela se pretende menos especializada. Assim, cada classe não será um corpo de conhecimentos fechado. São os grupos temáticos que devem prevalecer sobre as classes. Para, por exemplo, como queria Dewey, “entendermos o mundo à nossa volta”, temos as ciências da natureza (evolução,paleontologia, biologia), temos também a geopolítica e as ciências sociais juntas na mesma estante, o que em uma organização tradicional seria não menos que um absurdo. Mas não são, são um grande passo para a autonomia do leitor das tecnalidades hoje impostas.
Pode-se criar, sem nenhum desdouro para a classe biblioteconômica, uma espécie de “self-service” na Biblioteca, e assim dar a maior autonomia possível ao leitor.

(1) Aby Warburg criou um sistema assim para consulentes de sua biblioteca. Ver Manguel. Biblioteca  à noite . São Paulo: Cia das Letras, 2006



postado por Sheila G Soares às 19:40
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Como falar dos livros que não lemos por Pierre Bayard

O Globo  /  Data: 19/1/2008
Desconhecidos, folheados ou esquecidos...

À primeira vista, o livro "Como falar dos livros que não lemos?" parece um guia de humor. Com esse nome curioso, capítulos intitulados “Não ter vergonha” e “Situações de discurso com o ser amado” e uma tabela de abreviações em que são sugeridas as classificações LD, LF, LO e LE — livros desconhecido, folheado, de que ouvi falar e esquecido —, o ensaio que a Editora Objetiva acaba de lançar no Brasil pode aparentar ser mais uma obra para impressionar os amigos. Mas não é nada disso, garante seu autor, o professor de literatura francês Pierre Bayard. — Há uma compreensão equivocada de que meu objetivo é desestimular as pessoas a lerem. É o contrário. Eu sou um fã dos livros. Mas eu quero que as pessoas tenham uma boa experiência com a leitura. Na escola, a gente aprende a ler somente de uma maneira. Os professores falam dos livros importantes e dizem que você precisa lê-los do início ao fim, da primeira palavra até a última. O que eu defendo é a liberdade na leitura — explicou Bayard, por telefone, ao GLOBO.

 

Mais do que uma defesa sobre a liberdade, o livro de Bayard é um ensaio extremamente bem fundamentado sobre todo o processo de leitura — ou, como o autor prefere, o processo intermediário que existe entre a leitura e a não-leitura. Parece confuso, mas no texto do professor francês tudo fica extremamente agradável e simples. A partir de obras de outros escritores, ele disseca as situações pelas quais passa um leitor, de diversas origens e formações. Através de um obituário escrito pelo poeta e filósofo francês Paul Valéry na morte de Marcel Proust, por exemplo, Bayard explica que é possível falar sobre a obra de alguém mesmo sem tê-la lido por completo. Em outro momento, ele trata do enredo de "O nome da rosa”, de Umberto Eco, no qual o monge Guilherme de Baskerville investiga assassinatos cometidos num monastério. As mortes envolvem um dos volumes da “Poética”, de Aristóteles, obra no qual ele faz uma análise do riso. O detalhe que interessa a Bayard é que Baskerville deduz os crimes sem nunca ter lido a obra de Aristóteles. — Mesmo alguns livros que não lemos fazem parte de nossas vidas. São os livros sobre os quais nós ouvimos falar. Eu não devo ser capaz de dizer exatamente o que eu li sobre Hegel, Kant, Freud ou Proust. É claro que eu li muita coisas desses autores, mas é que eu também li muitos livros que falam sobre esses autores. É difícil diferenciar uma coisa da outra. É estreito o limite entre ler e não ler. Quantas pessoas podem dizer que leram da primeira linha até a última linha, da capa até a contracapa, a “Bíblia”? — questiona Bayard.

 

Já no capítulo “Situações de discurso diante de um professor”, o professor francês analisa o estudo da antropóloga americana Laura Bohannan com os tiv, um grupo étnico da África Ocidental. Nele, Laura relata a experiência que teve ao, oralmente, contar a alguns deles a história de “Hamlet”, de Shakespeare. O resultado foi que os tiv questionaram várias passagens do livro, por não entenderem, por exemplo, o significado de um fantasma ou não acharem estranho que a viúva Gertrudes se casasse pouquíssimo tempo depois da morte do marido.

 

Bayard desenvolve, então, um conceito que ele chama de “livro interior”, uma espécie de filtro que varia de cultura para cultura e que determinaria a recepção de novos textos por parte do leitor. — Eu acho que alguns livros importantes não o são para mim ou para você. Isso não significa que é para se sentir culpado caso você não se saia bem lendo alguma coisa. Eu digo para os meus estudantes que eu não fui bem sucedido em ler “Ulisses”, do Joyce. Talvez não fosse o livro para mim. E não me sinto culpado em não ter lido “Ulisses” e explicar do que ele se trata — diz.

 

Sobre os livros lidos e esquecidos, Bayard cita o ensaísta francês do século XVI Michel de Montaigne. Em seus “Ensaios”, Montaigne diz que, depois de ler um livro, detalhes “pequenos” como o autor e as palavras eram esquecidos prontamente. Até mesmo seus próprios escritos se perderiam na memória com o passar dos anos.

 

Bayard afirma que Montaigne teria conseguido apagar qualquer limite entre leitura e não-leitura. O autor diz que a “confissão” do ensaísta nada mais é do que um resumo da relação que todas as pessoas têm com os livros. “Não guardamos em nossa memórias livros homogêneos, mas fragmentos arrancados de leituras parciais”, escreve ele. — Existe uma situação intermediária entre apenas ler ou não-ler um livro. Os intelectuais conhecem bem essa situação porque estão acostumados a folhear os livros, a começar uma leitura e não terminá-la. Mas muitas pessoas não entendem isso — afirma Bayard. — Quando alguém vai ao meu apartamento, vê aquela quantidade imensa de livros e pergunta se eu li todos, eu francamente digo que não. A questão é que eu vivo com os meus livros, eles são minhas companhias, meus amigos. Quando eu tenho problemas, eu peço a eles a solução, mas não leio todos.

 

Dessa biblioteca, o professor francês tem dois volumes que podem resumir bem o espírito de liberdade pregado em "Como falar dos livros que não lemos?" (208 páginas). Um é a resposta dele à pergunta “qual o melhor livro que você não leu?”. Já o outro é uma confissão sobre um autor brasileiro.

 

— “Ulisses” é o livro que não li e mais gostei. Eu tenho certeza que é um ótimo livro. Há muitas garotas que são interessantes, mas que podem não ser para mim e podem ser para você. A lógica é a mesma — brinca o simpático Bayard. — Dos autores brasileiros, eu adoro Machado de Assis. O “Dom Casmurro” eu realmente li. E até o reli. Reler é também uma ótima forma de ler um livro. É importante ser um leitor criativo.

 

André Miranda


postado por Sheila G Soares às 11:57
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L. I. V. R. O. de Millor Fernandes

Existe entre nós, muito utilizado, mas que vem perdendo prestígio por falta de propaganda dirigida, e comentários cultos, embora seja superior a qualquer outro meio de divulgação, educação e divertimento, um revolucionário conceito de tecnologia de informação.
Chama-se de Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas – L.I.V.R.O.
L.I.V.R.O. que, em sua forma atual, vem sendo utilizado há mais de quinhentos anos, representa um avanço fantástico na tecnologia. Não tem fios, circuitos elétricos, nem pilhas. Não necessita ser conectado a nada, ligado a coisa alguma. É tão fácil de usar que qualquer criança pode operá-lo. Basta abri-lo!
Cada L.I.V.R.O. é formado por uma seqüência de folhas numeradas, feitas de papel (atualmente reciclável), que podem armazenar milhares, e até milhões, de informações. As páginas são unidas por um sistema chamado lombada, que as mantém permanentemente em seqüência correta. Com recurso do TPO – Tecnologia do Papel Opaco – os fabricantes de L.I.V.R.O.S podem usar as duas faces (páginas) da folha de papel. Isso possibilita duplicar a quantidade de dados inseridos e reduzir os custos à metade!
Especialistas dividem-se quanto aos projetos de expansão da inserção de dados em cada unidade. É que, para fazer L.I.V.R.O.S com mais informações, basta usar mais folhas. Isso porém os torna mais grossos e mais difíceis de ser transportados, atraindo críticas dos adeptos da portabilidade do sistema, visivelmente influenciados pela nanoestupidez.
Cada página do L.I.V.R.O. deve ser escaneada opticamente, e as informações transferidas diretamente para a CPU do usuário, no próprio cérebro, sem qualquer formatação especial. Lembramos apenas que, quanto maior e mais complexa a informação a ser absorvida, maior deverá ser a capacidade de processamento do usuário.
Vantagem imbatível do aparelho é que, quando em uso, um simples movimento de dedo permite acesso instantâneo à próxima página. E a leitura do L.I.V.R.O. pode ser retomada a qualquer momento, bastando abri-lo. Nunca apresenta " ERRO FATAL DE SENHA", nem precisa ser reinicializado. Só fica estragado ou até mesmo inutilizável quando atingido por líquido. Caso caia no mar, por exemplo. Acontecimento raríssimo, que só acontece em caso de naufrágio.
O comando adicional moderno chamado ÍNDICE REMISSIVO, muito ajudado em sua confecção pelos computadores (L.I.V.R.O. se utiliza de toda tecnologia adicional), permite acessar qualquer página instantaneamente e avançar ou retroceder na busca com muita facilidade. A maioria dos modelos à venda já vem com esse FOFO (softer) instalado.
Um acessório opcional, o marcador de páginas, permite também que você acesse o L.I.V.R.O. exatamente no local em que o deixou na última utilização, mesmo que ele esteja fechado. A compatibilidade dos marcadores de página é total, permitindo que funcionem em qualquer modelo ou tipo de L.I.V.R.O. sem necessidade de configuração. Todo L.I.V.R.O. suporta o uso simultâneo de vários marcadores de página, caso o usuário deseje manter selecionados múltiplos trechos ao mesmo tempo. A capacidade máxima para uso de marcadores coincide com a metade do número de páginas do L.I.V.R.O.
Pode-se ainda personalizar o conteúdo do L.I.V.R.O., por meio de anotações em suas margens. Para isso, deve-se utilizar um periférico de Linguagem Apagável Portátil de Intercomunicação Simplificada – L.A.P.I.S.
Elegante, durável e barato, L.I.V.R.O. vem sendo apontado como o instrumento de entretenimento e cultura do futuro, como já foi de todo o passado ocidental. São milhões de títulos e formas que anualmente programadores (editores) põem à disposição do público utilizando essa plataforma.
E, uma característica de suprema importância: L.I.V.R.O. não enguiça!



postado por Sheila G Soares às 01:00
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