Nas políticas e nos programas de leitura há uma defesa quase unânime da leitura literária prioritariamente a outras leituras em todos os níveis.
É evidente que as primeiras abordagens ao livro são quase sempre narrativas, se pensarmos numa evolução da leitura desde a infância. Porém coloco, na minha exposição, que essa defesa como superdimensionada. Pretendem as políticas que a cultura literária deva "se impor". A minha discordância se baseia em alguns pontos:
a) A linguagem literária é subjetiva por excelência, enquanto narrativa poética, ficcional e expressão artística. E assim deve ser por natureza.
b) A leitura, incluindo a escrita, dita "voltada para o cotidiano, por necessidade prática" realmente não dá asas à imaginação tanto quanto a literatura, mas pergunto : o quanto não será necessario de domínio das ferramentas discursivas, presentes nos diferentes enunciados, para permitir a destreza em leitura e escrita? A saber descrições, representações gráficas, argumentação, proposições e diferentes formas de expressão comunicativa. Impor um discurso literário narrativo não seria impor uma visão apenas parcial?
c) Por que a cultura científica e filosófica não podem fascinar as crianças tanto quanto a literatura encanta?
d) E baseado nesse pressuposto, a Literatura tem servido de mediadora para os conteúdos científicos (tanto de exatas como sociais) destinados a crianças e jovens, como também para a própria literatura, com adaptações que desfiguram e infantilizam grandes clássicos em nome da facilidade de compreensão ou "assimilação", como gostam os pedagogos.
d) Em nome desse facilitário, muitos livros pra jovens e crianças vem com bulas: notas, glossários, comentários, exercícios gramaticais, transversalidade, e os famigerados roteiros de leitura, contaminando toda uma produção editoral, sem dúvida tornando-a rendosa para autores e editores, mas desastrosa para a autonomia do leitor.
Então qual o lugar da Leitura literária? O que lhe sempre coube. Na arte, não na pedagogia. Há, sem dúvida, conhecimento abundante na literatura, mas não é ela a responsável por disseminá-lo, porque não tem esse compromisso. Tal papel, que vem lhe sendo atribuído, pode fazê-la desaparecer na forma de arte livre.
Para defendê-la e não criticá-la, como parece, é que me coloquei desta forma a respeito do que vem representando a literatura para a formação do leitor: ferramenta e não expressão autônoma de arte. Nesse caso, podemos decretar para breve o seu fim.
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