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Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011
Jogando a criança...parte 3 Conclusão

Ambiente e Sociedade como propulsores da leitura

 

Nosso ambiente e sociedade, é sabido, historicamente,  não propiciaram o hábito de leitura de livros , porque, tanto o acesso amplo, do ponto de vista material, quanto a qualificação para ler foram tardios para nosso povo, sendo que o impulso dos primeiros programas distributivos se deu após meados dos anos sessenta, e tomou vulto expressivo na década de 90. Outro fator foi o tardio entendimento do livro como objeto de consumo e  fruição, já que ele era visto como algo ligado ao ensino, à obrigação - à seara da escola. Uma política estabelecendo, diga-se de passagem, corretamente, um papel para o livro para além de objeto de "dever", com feiras e salões, festas literárias anuais (sem contar as bienais), enfim ações exclusivas a seu favor, é algo relativamente recente. Só para ilustrar, o Proler é de 1992 (quando Affonso Romano de Sant´Anna assume a Biblioteca Nacional) e o PNLL (Política Nacional do Livro e da Leitura) de 2003.

No entanto, eis  que em fins da década de 80, há uma revolução no início quase silenciosa, mas, em tempos recentes, tão avassaladora para o que diz respeito ao padrão eletivo de consumo, sem falar da expansão da tv com seu potencial de influência, quanto perturbador do processo educativo tradicional: a popularização da informática pelos computadores pessoais e Internet. Tanto que em 2006, a Folha de São Paulo (1)  divulgava uma pesquisa do IBGE sobre o crescimento dos meios de entretenimento, no qual o setor de provedores de Internet crescera entre 1999 e 2005, 207% contra 11% do mercado de livros.

Porém, mesmo diante desse quadro, a política de leitura permanece inalterada, considerando que a mídia eletrônica é "apenas acessória" e que "a verdadeira leitura está nos livros". Tal posição é conservadora, pois, evidente, até para se usar a internet é preciso tanto preparo quanto para uso do livros. A não se reconhecer esse quadro secular, cai-se numa posição de resistência, heroica e romântica, e talvez temerária, quanto a não se pensar em estratégias diante dessa avalanche da web e seus subprodutos.  Por outro lado, há uma tendência secular à espetacularização já contaminando as práticas leitoras. Úteis, porém com o risco de mais  formar plateias do que leitores.

Para finalizar, fala-se do "leitor crítico", o que é capaz de emitir juízo de valor sobre as leituras (de livros e do mundo). Mas há certo preconceito - quando se fala deste em relação ao leitor comum, que pode se um leitor menos culto e exigente, mas nada garante  que não possa exercer bem sua cidadania, sem ser erudito, por não ter lido obras canônicas.

 

Antes de ser considerada "do contra" ou "contra" o incentivo ou ações culturais em leitura, adianto que, longe disso,  procurei apontar aspectos  que considero frágeis na política do e para o livro, e que podem ser debatidos, revistos e atualizados, e creio ser esta uma contribuição que uma bibliotecária  cheia de dúvidas e inquietações possa dar.

 

 

 (1) Folha de São Paulo, 25 de setembro de 2006


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postado por Sheila G Soares às 21:08
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Terça-feira, 27 de Dezembro de 2011
Jogando a criança... Parte2. O lugar da leitura literária

 Nas políticas e nos programas de leitura há uma defesa quase unânime da leitura literária prioritariamente a outras leituras em todos os níveis.

 É evidente que as primeiras abordagens ao livro são quase sempre narrativas, se pensarmos numa evolução da leitura desde a infância. Porém coloco, na minha exposição,  que essa defesa como superdimensionada. Pretendem as políticas que a cultura literária deva "se impor". A minha discordância se baseia em alguns pontos:

 

a) A linguagem literária é subjetiva por excelência, enquanto narrativa poética, ficcional e expressão artística. E assim deve ser por natureza.

 

b) A leitura, incluindo a escrita, dita "voltada para o cotidiano, por necessidade prática" realmente não dá asas à imaginação tanto quanto a literatura, mas pergunto : o quanto não será necessario de domínio das ferramentas discursivas, presentes nos diferentes enunciados, para permitir a destreza  em leitura e escrita? A saber descrições, representações gráficas, argumentação, proposições e diferentes formas de expressão comunicativa. Impor um discurso literário narrativo não seria impor uma visão apenas parcial?

 

c) Por que a cultura científica e filosófica não podem fascinar as crianças tanto quanto a literatura encanta?

 

d) E baseado nesse pressuposto, a Literatura tem servido de mediadora para os conteúdos científicos (tanto de exatas como sociais) destinados a crianças e jovens, como também para a própria literatura, com adaptações que desfiguram e infantilizam grandes clássicos em nome da facilidade de compreensão ou "assimilação", como gostam os pedagogos.

 

d) Em nome desse facilitário, muitos livros pra jovens e crianças vem com bulas: notas, glossários, comentários, exercícios gramaticais, transversalidade, e os famigerados roteiros de leitura, contaminando toda uma produção editoral, sem dúvida tornando-a rendosa para autores e editores, mas desastrosa para a autonomia do leitor.

      

      

Então qual o lugar da Leitura literária? O que lhe sempre coube. Na arte, não na pedagogia.  Há, sem dúvida, conhecimento abundante na literatura, mas não é ela  a responsável por  disseminá-lo, porque não tem esse compromisso. Tal papel, que vem lhe sendo atribuído, pode fazê-la desaparecer na forma de arte livre.

 

Para defendê-la e não criticá-la, como parece,  é que  me coloquei desta forma a respeito do que vem representando a literatura para a formação do leitor: ferramenta e não  expressão autônoma de  arte. Nesse caso, podemos decretar para breve o seu fim.

 

 



postado por Sheila G Soares às 20:48
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Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011
Jogando a criança fora com a água da bacia ...ou jogando a água da bacia com a criança? Parte I

Tive a oportunidade de ver meu trabalho aprovado no Congresso Internacional de Leitura em Havana de 25  a 29 de outubro deste ano. O que apresento aqui são comentários, pois o original foi bastante extenso e mais técnico. Minha exposição, intitulada Programas de Incentivo à Leitura: dúvidas e inquietações, pontua-se em três tópicos, que, do meu ponto-de-vista, merecem revisão das políticas. 1. Capacitação x Incentivo (Aprendizado e práticas de leitura) 2. O lugar da leitura literária (a Literatura deve se impor?) e 3. Ambiente e sociedade como propulsores da Leitura (que estratégias as políticas devem tomar em relação à crescente informatização da sociedade?).

 

Primeira parte: Capacitação e Incentivo (Aprendizado e Práticas de Leitura)

 

A um simples olhar, é nítida nas políticas de Leitura, a demarcação de duas fronteiras entre aprendizado e incentivo, uma dicotomia que vem a se fazer mais nítida, à medida que os órgãos ministeriais vinculados à Cultura e pertinentes ao livro e a Leitura, chamam para si a tarefa das práticas de leitura, uma vez acordado, entre  seus  agentes  e os da Educação, que há impossibilidade crônica ("interdição") do professor  em levá-las adiante. Tal estado de coisas é um lamentável consenso. À primeira vista parece razoável : a Educação cuida do aprendizado da leitura e a Cultura das práticas. Mas não é tão simples assim. Ocorre que, ao defender que o "as práticas, e não o aprendizado voltado para o cotidiano é que possibilitam  o leitor participar de maneira ativa da sociedade", tal postulado só seria verdade inteira, na medida que esse leitorado estivesse no domínio do letramento, ou seja que ele tivesse desenvolvido as etapas de decodificação, compreensão e produção escrita autonomamente. Ou dito de outra forma, que já estivesse vencendo, ou vencido, a linha divisória do analfabetismo funcional, condição que o ensino fundamental no país não tem  conduzido satisfatoriamente, conforme testes nacionais e internacionais de proficiência em leitura.  Defender práticas de leitura como "formação", sem essa sustentação, é como construir um edifício sem estrutura, ou como prefere o povo, "enxugar gelo". As diretrizes  políticas exageram quando afirmam que "o contato com materiais de leitura  possibilita o leitor se tornar autor de sua própria existência". Sim, mas nunca  se não estão suficientemente preparados para esse protagonismo. Não será o processo inverso - quanto mais preparado para os materiais de leitura, mais vivo será o interesse desse leitor? O fato de que o leitor necessita estar preparado para esses materiais não é científico, é constatável no cotidiano, por qualquer observador, como tenho feito há dez anos. O acesso ao livro, claro, repercute no interesse e no desejo, porém não diretamente na formação. Não podemos falar com honestidade no fato de brasileiro ler pouco atribuindo à falta de acesso ao livro no Brasil. Salvo em algumas aldeias e grotões; há, e já há algum tempo, inúmeros programas oficiais distributivos de grande porte, - e seria ocioso citá-los - voltados para escola e bibliotecas, fora as Organizações Não Governamentais atuando para esse fim. Daí  constatar-se facilmente  que o que aparenta ser "desinteresse" e "desestímulo" é tão somente falta de qualificação que a leitura requer. Recorrendo ao argumento prosaico: posso adorar automóveis ou pianos, mas como vou dominá-los, se não aprendo a utilizá-los? Fazer de conta  que leitura não é uma tecnologia é como jogar fora a água da bacia com a criança dentro, ou jogar fora a criança com a água da bacia?  Dizia Rubem Alves muito bem, "leitura sem dominar a técnica é um sofrimento". Foi simplesmente essa ideia, para muitos talvez óbvia, mas para mim simples, que tentei passar na minha exposição. Devemos sim, tentar trazer a nós , através da ação cultural, sem perder de vista os miúdos, aqueles leitores que estamos perdendo dia a dia, as verdadeiras "ovelhas desgarradas" por outros motivos, e muitos há, para não ler. Agora, os que não estão capacitados é dever moral e urgente da Educação promover : afinal, não é a esses que é negado o direito de ler, mas o de  saber ler para ser autor de sua existência.


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postado por Sheila G Soares às 19:33
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Domingo, 20 de Novembro de 2011
O erro de Descartes. Erro?

O erro de Descartes de Antonio Damasio há um tempo aguardava na fila para ser lido, e eis que resolvi enfrentar o tijolão. Peguei um sábado insosso e estabeleci a meta de lê-lo todo, mas não foi tanto sacrifício assim, pulei um caudaloso número de páginas que descreviam o sistema neural, anatômica e fisiologicamente, e não vi utilidade em reter esses dados tão minuciosos e chatíssimos. Damasio procura, com eles, e não sem ajuda de extensa bibliografia, embasar sua argumentação que consistia em mostrar que, ao contrário do que o mestre francês dizia, corpo (cérebro) e mente são entidades inseparáveis. Nem precisava de tanta firula. O argumento de Descartes (1596-1650) em primeiro lugar é filosófico, e reinvindica um princípio da dúvida como a base científica do conhecimento - cogito -penso, logo existo deve ser lido como duvido, logo existo. Ora tal primado era uma ameaça ao dogma da Igreja, em pleno período da inquisição. Descartes foi sagaz a ponto de criar uma "metafísica" onde a entidade mente (ou razão) não tinha materialidade, ou seja era "espírito" e "alma", logo, "coisas do Reino de Deus", o que por pouco lhe permitiu escapar da fogueira em que ardeu um pouco antes Giordano Bruno (1600) e do processo imputado pelo Santo Ofício a outro defensor das ideias que contrapunham-se ao dogma: Galileu Galilei (1642). Uma feliz constatação que  o próprio Damásio faz, atualizando as premissas de Descartes para os dias de hoje é a de que o cérebro funcionaria como um hardware, enquanto a mente como um software! Ponto para o mestre francês! E para fechar o raciocínio do neurocientista italiano, no posfácio ele confessa que, apesar de muitas descobertas a respeito de cérebro e mente, ainda pouco se sabe ainda para que se desvende seus mecanismos e suas relações. Poderíamos concluir então que se foi possível avançar em Ciência foi graças ao princípio simples e irretorquível que Descartes fundou: o da Razão com sua propriedade de pensar e duvidar. Erro? Coisa de Deus? Façam as suas escolhas.


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postado por Sheila G Soares às 17:33
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Quinta-feira, 10 de Novembro de 2011
A culpa é das briófitas

 

Vejo-me diante de um aluno aflito de  6º ano (antiga 5ª série )  me apontando para o caderno, e mostrando-me, mal sabendo pronunciar, o tema sobre o qual devia discorrer, e que eu mesma li com dificuldade: briófitas e pterodófitas. Imediatamente perguntei-lhe se ele tinha alguma idéia, qualquer uma, do que se tratava, ele negou; insisti, não seriam espécies de animais? Novamente negou saber. O professor não deu nenhuma deixa? Não, segundo ele. Professor de que?  Arguí. Ciências. Hum... Então resolvi ir por partes. Mais pela sonoridade do que por intuição, tais nomes me remeteram aos livros didáticos da série correspondente, e especificamente Seres Vivos. Nada. Mais por intuição do que por conhecimento de causa, me perguntei – e por que raios esse menino precisa saber o que são briófitas e pterodófitas? – e mais que depressa socorri-me da Internet com a resposta pronta de tio Google, as famosas e charmosas briófitas e pterodófitas eram plantas, coisa que  do alto de meus mais de seis décadas de existência, jamais suspeitaria. Perguntei-me de novo, será que as pessoas podem morrer sem saber o que são briófitas e pterodófitas? Não é questão do Ibope fazer uma pesquisa nacional a respeito? Enfim, localizei o livrinho que tinha os nomes científicos, e entreguei, solidária na ignorância, ao jovem aflito, que certamente terá seu problema resolvido, copiará feliz os verbetes e entregará ao mestre, ganhará alguma nota, e estarão todos gratificados com a perspectiva  de que no futuro este jovem seja um brilhante biólogo. Uma pergunta leva a outra: mas como anda mesmo a educação no país? Com respeito ao sistema público no Brasil , está publicado que quase metade dos alunos mal compreendem um texto, mal escrevem, fazem apenas operações matemáticas simples,  e isso, até o final do primeiro ciclo (4º) ano. Aplicado a esse caso, um menino de 6º, que seria o 1º em que são introduzidas as disciplinas, tem de cara que enfrentar todas as nomenclaturas, e apavorado, como se elas se fossem ETs. E pensando bem são, se pensarmos no conjunto de inutilidades existentes nesses currículos. Uma cena me veio logo, a da reunião dos formuladores dos currículos, em alguma sala do planalto, um deles rodando a sala e solenemente  argumentando: “não, as briófitas e as pterodófitas não podem ficar de fora. Inconcebível que  um aluno que se forma no fundamental não saiba o que sejam briófitas e pterodófitas”, e se dá a votação do programa. Briófitas e pterodófitas vencem por maioria simples. Bom, se não se sabe efetivamente as causas dos resultados esquálidos do ensino no país, mas pelo menos a gente pode, por ora, botar a culpa nas briófitas e pterodófitas.

 

Em tempo: Exemplo de briófitas são musgos; de pterodófitas, nossas belas e banalíssimas samambaias!



postado por Sheila G Soares às 00:50
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Sexta-feira, 16 de Setembro de 2011
Até tu, Paulo Coelho?

Foi noticiado que "O Alquimista", "O Demônio e a Srta.Prym" e "Veronika Decide Morrer" do Paulo Coelho serão "adotados" em escolas. Caiu o último bastião da resistência ao ganho fácil em literatura? É um grande negócio a adoção por escolas, já que o processo uniformiza a leitura - todos os alunos têm que ler os mesmos títulos- e os livros passam a ser adquiridos para turmas, essa compra é, portanto é não só vultosa, principalmente quando apoiada pelas compras governamentais para a rede pública, como também impositiva, em consequência da escolarização da literatura. E o que é pior, os livros vem com "bula", ou seja os tenebrosos guias de leitura com o fim de "ajudar" o professor e os jovens a "interpretar" um conteúdo. Tal fato atinge em cheio a autonomia do leitor, já que a literatura tem caráter absolutamente eletivo, ou seja, a leitura literária é fruto de escolhas pessoais. Quando a escola adota determinada obra literária, o que ela está fazendo é interferindo no direito de escolha, fundamental ao amadurecimento do leitor. Lembro-me que em certa época dizia-se "criança não tem querer" e é justamente o que essa política educacional faz. Os adolescentes deviam refletir e argumentar com professores e administradores sobre essa questão. E simplesmente ter o direito de não querer nenhum autor imposto. Uma coisa é incentivar, divulgando o Sr. Coelho, a Sra Rowling e outros best-sellers; outra é impor. Adotar é impor. É assim que Svetlan Todorov diz que a literatura está em perigo. Uma atitude saudável seria ter em alguns exemplares na bibliotecas para os que se interessarem pegarem por empréstimo. A outra questão: livro não é remédio para vir com bula, que são esses guias didáticos. Essas bulas, em que o autor ou editor induz a uma "compreensão" de um texto, dando um sentido "objetivo" (igual para todos) a uma obra, nada menos que violenta o princípio básico de que o leitor, espontânea e criativamente, interage com um livro, de acordo com as suas concepções e seu universo próprio. A produção de sentido é pessoal e intransferível. A discussão da subjetividade de cada leitor é que enriquece uma obra. Narrativa literária não é ciência exata. Portanto não precisa de bula nem de explicação. Torço sinceramente que essa empreitada não dê certo, porque sob a aparência de incentivo à leitura, o que prevalece são interesses comerciais.



postado por Sheila G Soares às 23:00
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Quarta-feira, 15 de Junho de 2011
CULTURA SOBRE BIBLIOTECA E LEITURA EM AMBIENTE ESCOLAR

                                                                                      

Cultura aqui é um conjunto de discursos e práticas de educadores e outros profissionais com relação à biblioteca e à leitura, e muitos dos quais viraram paradigmas. Vamos a eles:

 

“Silêncio, você está numa biblioteca!”. Este chamo de paradigma “Biblioteca Nacional”. Ao contrário da BN, na biblioteca em ambiente escolar, as crianças podem circular, como nas livrarias, mexer  nos livros, escolher e falar normalmente no recinto, claro que dentro de certa ordem, mas as regras de respeito não são regras exclusivas “de biblioteca”, são regras de convivência em qualquer lugar. Biblioteca escolar não é igreja

                                                           *

“O livro não pode sair e não pode estragar” . Chamo este de Livro-patrimônio. No sentido físico, o livro é apenas um suporte. Há bibliotecas que “tombam” e inventariam o acervo, o que deveria ser uma prática somente na Biblioteca Nacional. Nas demais, o patrimônio maior se forma nas mentes dos que fizerem uso da obra. Nunca a função de guardiã deve superar a de difusora. Em escolas e bibliotecas infanto-juvenis, há a se considerar, porque é inevitável, um certo grau de destrutividade e perda de livros, o qual se “trata” através do processo educativo. Salvo os livros de consulta e os  esgotados, em geral, qualquer título é recuperável. Deve-se estimular o cuidado, mas não se deve engessar a circulação de uma coleção, com medo de que o exemplar se perca ou estrague.  O prejuízo do não-uso  é muito maior. Livro que não circula é inútil.

*

“Conhecer como funciona a Biblioteca para ser leitor de Biblioteca no futuro”. Chamo este de paradigma burocrático. Nada mais falso. Nunca minha condição de leitora foi afetada por “saber usar” bibliotecas, mas pelo interesse pelo livro ou pela pesquisa.  Biblioteca e Escola são meios e não fins. O importante é a criança saber, sim, que a Biblioteca  é uma das mais importantes fontes de informação, não a única, de que ela dispõe. É claro que quanto mais autônomo for o leitor, melhor. Mas cabe ao bibliotecário orientá-lo sempre. Para isso ele é, espera-se, o profissional mais habilitado.

                                                           *

“Se não se comportar, vai para a Biblioteca!” . Cultura da masmorra . Biblioteca não é lugar de castigo. Ler também nunca  deve ser castigo. Nem escrever.

 

                                                           *

Não tem nada para fazer? Então vá para a Biblioteca!” Cultura do depósito. Biblioteca não é depósito. Nem de livros, nem de crianças indisciplinadas.

 

                                                           *

“Um livro grande é sempre melhor para as crianças”: Paradigma do volume .Metamorfose de kafka. O Velho e o Mar de Heminguay e O alienista de Machado de Assis são pequenos volumes e grandes jóias  e assim muitos outros. E livros grandes que são grandes livros, como Guerra e Paz, de Tolstoi e Crime e Castigo, de Dostoievski. Uma crença corrente é de que quanto maior volume, mais se permite assimilar vocabulário. Permite, se o jovem se envolve na leitura. Está aí o Harry Potter que não nos deixa mentir. Se o leitor não se envolve, nada, nada mesmo, acontece.

                                                           *

“As crianças têm preguiça de ler” : Paradigma da preguiça. Quase sempre, a “preguiça” são dificuldades e deficiências de leitura, problemas visuais e emocionais, timidez. Preguiça dá até em adultos. Antes houvesse mais preguiça do que dificuldades!

                                                           *

“Quem muito lê, escreve bem”: Muita leitura igual à boa escrita. Não obrigatoria, nem automaticamente. Escrever bem vem da prática mesma da escrita. Mas escrever muito, como na leitura, não é em quantidade (muitas linhas ou páginas), mas em frequência. Ler habitualmente e com envolvimento, sem dúvida, agrega mais vocabulário, informação e correção ortográfica à escrita. Escrever bem, porém, depende mais do pensamento articulado, de domínio do discurso (comunicar bem) do que de “somar vocabulário”.

 

                                                           *

“Literatura para nota” ou para ensino do português. Paradigma Didático. É exploração da Literatura como exercício. Se quiserem matar o gosto de alguém para textos literários, façam isso. E pior que é prática comum. A desculpa é o “vestibular”. Os textos didáticos e textos auxiliares (gramáticas) servem para ajudar a estruturar o entendimento da língua . Mas literatura não, literatura não “ensina” a língua; deixem literatura só  para contar e ouvir, ler em voz alta ou em roda, unindo, se for o caso, prazer à leitura (inclusive dramatização e canto), ou em silêncio, individualmente. Deixem por favor a literatura em paz, que ela produz por si só seus frutos! Não a “adotem”, ela não é órfã ! E sabe onde ela está? Ali mesmo na biblioteca. Ofereçam-na, exponham-na! Os pequenos que a descubram. Quantas vezes crianças vieram a mim buscar um livro porque o viram citado na novela ou porque um coleguinha leu. Confiem nelas!

                                                                       *

“As crianças devem ler só os “famosos, grandes e renomados”. Paradigma da Autoridade. Filho do paradigma acima. Que bom se elas lessem com prazer todos os famosos e renomados, mas há entre esses, acreditem se quiser, alguns bem infelizes em suas experiências de escrever para jovens e, por outra, autores bem desconhecidos que são sucesso entre eles. É preciso considerar sempre a capacitação, a escolha e a recepção da criança aos autores.É um direito dela. Os professores têm tudo para incitar  crianças a amarem bons livros. Basta que os tenham lido, e os apreciado de verdade. Não se devia permitir que jovens consumissem literatura “como jiló”. É crime de lesa-espírito!

                                                                *

“Computadores, televisão e quadrinhos atrapalham a leitura”. Preconceito  puro. E superado. Mas existem as resistências. As mídias devem somar e têm essa propriedade. Além do mais, não há mais como não contar com elas, no dia a dia da criança e do jovem. O melhor é tirar partido.                                                                 *



postado por Sheila G Soares às 04:40
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Terça-feira, 24 de Maio de 2011
Por uma vida melhor II - o LD

Isto posto, vamos ao que me toca profissionalmente, mais de perto. O objeto/meio livro. E um livro didático, que eu chamo de LD. Aquele parecer a respeito de falares,  de que "não está errada" esta ou aquela forma coloquial não é adequado à finalidade da obra que é de ensino,  justamente da norma culta. Se norma culta parece besta, vamos entender que seja a linguagem formal, pronto. Não por obediência cega, não por falta de espírito crítico, não por censura aquilo não deveria estar ali. Nâo deveria estar ali porque é um juízo de valor de alguém, que seja o seu autor ou autora;  e o lugar da opinião, do juízo, não é certamente o livro didático. São os foruns, é a imprensa, é a comunidade profissional, a família, a sociedade.  Mas está ali. E sozinho o livro atingiu, só para começar, em torno de seiscentas mil cabeças, passando por cima da cabeça do professor, direto para as cabecinhas em formação, ainda mal formulando um discurso com a correção (formal) mínima. Este é o poder dado a este tipo de livro, que de auxiliar do professor, passou a seu superior direto . Lembro-me que certa vez escrevi um artigo  - Lições de uma montanha de livros - descrevendo uma situação em que me via diante de uma quantidade imensa de livros para fazer triagem, e milhares, milhares mesmo - não menos de três dígitos - de exemplares do Livro do Professor. Examinei alguns e vi que não eram apenas orientações pedagógicas, eram a reprodução fiel do mesmo didático que ia para as crianças, só que com as respostas corretas, inclusive respostas discursivas. Em todas as disciplinas! Bem, podemos pensar, em todas as profissões temos nossos manuais, mas aqueles não eram manuais. Era como se um médico tivesse que, ao atender seu paciente, buscar seu diagnóstico nos manuais de Medicina  - ou um advogado nos tratados de Direito - é claro que eles o farão, em caso de dúvida, mas vemos que não é usual, já que eles têm o domínio de sua especialidade, e a autonomia   necessária para fazer as suas intervenções, só com a experiência, o conhecimento adquirido. Então, que poder é esse do livro didático? Que autonomia é essa do professor?  É o que precisa ser posto. 

Por uma aspecto é  bom que tenha acontecido com o poderoso LD. De outro modo, quando haveria a oportunidade de se levantar algo que, para mim, e , acredito, muitos, não é  senão a questão da autonomia e autoridade do professor que tal estado de coisas coloca em jogo?



postado por Sheila G Soares às 23:39
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Sábado, 21 de Maio de 2011
Por uma vida melhor

Preconceito linguístico. Sob esta justificativa, um livro didático ("Por uma vida melhor", prof. Heloísa Ramos, editora Global ) relativiza o "falar certo" e "o falar errado". Dizia um velho ditado, de boas intenções o inferno está cheio. Acredito, sem a menor dúvida, nas boas intenções dessa professora aposentada, uma das autoras do livro. Recebeu uma saraivada de ataques, da grande imprensa, na redes e não serei eu mais um a jogar tomates. Quero abordar essa questão e fazer alguns links com a intenção, não a pretensão, de que alguns façam bom uso deles. É verdade que o "falar errado" é objeto de bullying. E que falar errado tem duas vertentes, a baixa instrução na língua pátria e o regionalismo. Todos conhecem muitas piadas e brincadeiras com  o "mineirês", o "baianês" e "gaúchês", entre outras falas originadas nos estados e no interior do Brasil, e que inclusive são salutares, quem não há de compreender a existência dos múltiplos falares no país. Porém, a mais grave é aquela de recorte social, aquela que alija e exclui os indivíduos de suas oportunidades. Não são a raras as ocasiões que pessoas humildes são vítimas de chacotas, por falar "ferindo a  norma culta", seja presencialmente nas escolas, seja pelos meios de comunicação (nos humorísticos), ou Internet. Nesse sentido "Seu Creysson" é mais pernicioso que Chico Bento, embora ambos igualmente abalroem a língua-mãe. Enfim, até aí nada demais que nas escolas se comentem os falares diversificados, mas monumental é a confusão que se dá entre  os falares e a norma que estrutura organicamente a língua; a língua tem flexão, tem gênero e um conjunto de outros aspectos que a tornam una e única em sua expressão. "Os livro", então, está errado quando a norma  estabelece que o plural afeta os termos de uma oração. Pode-se relativizar as falas, mas as regras apenas quando as mudanças culturais se impóem. Exemplo muito citado:  Vossa Mercê, vosmicê e Você. Foi uma evolução que só se deu no século XIX apenas. O pronome vós e os possessivos vosso(os,a,as)  são candidatos fortes ao museu da língua de estritíssimo uso; na área religiosa e jurídica. Asim muitas categorias devem estar condenadas ao ostracismo porque todos concordam que a  língua é organismo vivo e poroso aos intercâmbios da sociedade. Hoje os intercâmbios são muito mais diversificados, em razão da globalização.

(Continua)



postado por Sheila G Soares às 23:48
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Segunda-feira, 18 de Abril de 2011
O espírito da letra

“Leitores são puro mistério. Com os olhos alterados pelas sombras da loucura, Wellington Menezes de Oliveira , o atirador que matou 12 crianças em uma escola o Realengo, no Rio, leu trechos dispersos dos Evangelhos e do Alcorão como se fossem manuais de armas. Terroristas agem movidos pelo mesmo erro. O problema é que toda leitura  - mesmo a mais atenta e sábia – é sempre uma desfiguração. Toda leitura é deformada. Para meu incômodo, voltam-me as palavras de Augusto Roa Bastos: “Os livros não existem. Na cabeça de cada leitor, um livro é sempre outro livro”. O problema não está na constatação de que a letra é um abismo povoado por muitos espíritos. Está em esconder isso e supor que a leitura, ao contrário, é uma pedra. Leninistas e trotskistas ainda hoje discutem a maneira correta de ler Karl Marx. Freudianos e lacanianos disputam a “posse” da verdadeira leitura de Sigmund Freud. \um veio fundamentalista atravessa essas divergências. Contra os adeptos da leitura dura e encrespada em que a letra se faz grilhão, prefiro o sentido que lhe empresta a literatura, em que as palavras traçam sinuosas em que nos perdemos”.

Em outro trecho, JC declara: “Um mundo sem escrita (sem palavras) é um mundo louco. Do mesmo modo, um mundo intoxicado  de palavras – o mundo de Wellington – é uma terra devastada. A escrita não é só uma técnica. Não é algo que se faz, é algo que se sofre.(...) Toda escrita é parcial – atrás da presença luminosa dos traços, inscreve-se uma ausência. É essa ausência que os fundamentalistas, com sua arrogância, desprezam.(...) Sem as palavras o mundo parece mais simples, mas torna-se também mais assustador . A letra pode ser destruída, pode congelar nos porões da ordem, mas seu espírito  não se prende. (...) Antes que a escrita se torne pedra, antes que asfixie e mate,(...) morta pode enfim conectar-se com os espíritos que vagam entre as letras. Preserva assim a força das palavras, não como armas de guerra, mas como um fio a que, com grande esforço, nos agarramos”

 

              (José Castello, O espírito da Letra, O Globo, Prosa e Verso, 16 de abril de 2011).

 

Costumo anotar pérolas sobre leitura que nos levam a inúmeras reflexões. Neste artigo o colunista citado comenta o romance de Yasmine Gatha , Tinta Negra , em Rikkat Kunt, o personagem se aproxima (com leveza) das páginas do Alcorão e dos escribas árabes.

 

É claro que só os pequenos trechos acima dariam um tratado – sem durezas e encrespamentos – sobre produção de sentido – para o bem e para o mal -; sobre as convicções que são nada mais do que escolhas éticas (ou antiéticas), sobre fundamentalismo no ensino, onde reprodução é “interpretação”; na constatação evidente mas importante de que há o livro que é apenas o suporte, aquele “do copista”, que é a pedra, e aquele livro que ‘vai para a cabeça”, da recriação, da desfiguração e da loucura. E, digamos, acima do Bem e do Mal, a Literatura, na qual nos perdemos em suas sinuosidades e ausências, porque a Literatura não se pretende empedrar, congelar, engessar, dogmatizar enfim “asfixiar e matar”.

Os belos Alcorão e Evangelhos nutrem-se de Literatura à exaustão, mas com o propósito não de libertar o espírito, mas aprisioná-lo no “porão da ordem”. Assim toda uma literatura dita “de elevação moral e espiritual do homem” vem desta tradição de se ler ao pé da letra ensinamentos, arrastando o leitor a um sentido único, a um “senso comum”, exacerbado por psicopatas como Wellington Oliveira. Ao contrário desses a literatura libertária, com suas sinuosidades e ausências, povoam nossa imaginação e nos instiga. A ilustrar citaríamos como libertários um outro Evangelho, o de José Saramago, e mais outro, a obra de Kafka , Jonathan Swift, Cervantes e Lewis Carroll, esses devidamente  “infantilizados” para esterilizar o sentido anárquico e desfigurado de seu discurso, porque só um discurso “conexo e coerente” é moralmente aceitável para os fundamentalistas.

Enfim, disse muito pouco ou muito menos que José Castello, mas aqui não se faz uma aposta, aqui o brilhante artigo do colunista é uma luz que se acende para nós sobre o espírito da letra e das letras, e principalmente, nos interessa saber muito e cada vez mais sobre o que nos prende e nos asfixia.



postado por Sheila G Soares às 00:47
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